sábado, 28 de fevereiro de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - INTRODUÇÂO


A Guerra do Paraguai é o maior conflito já deflagrado dentro do continente sul-americano; foi uma guerra em grande escala, empregando homens e material em uma proporção jamais imaginada na história militar desta parte da América; há quem diga que foi o explodir de tensões que já vinham se acumulando desde meados do séc. XVIII, das disputas de fronteira entre as metrópoles portuguesa e espanhola, que as nações surgidas no continente no limiar do séc. XIX herdaram; outros dizem que simplesmente foram os caprichos de um ditador sem escrúpulos que arrastaram um país inteiro para a guerra, e quase dizimaram sua população masculina economicamente ativa;

Foi uma guerra que enriqueceu alguns e empobreceu muitos; apesar de ser igualmente chamada (especialmente nos países europeus) de “Guerra da Tríplice Aliança”, por causa da participação brasileira, uruguaia e argentina, um país , mais que todos, suportou o peso econômico e humano da guerra: o Brasil; nosso país amadureceu militarmente; nosso exército, formado praticamente a partir de um corpo de voluntários de origens e temperamentos diversos, foi tomando a forma e a organização de um organismo moderno, mesmo quando suas origens pudessem vir do recrutamento forçado; mesmo sendo coeso, ainda assim o preconceito grassava forte (os soldados brasileiros eram chamados de “Macacunos”, pelos paraguaios e mesmo pelos aliados) e mesmo os brasileiros, especialmente os gaúchos, mais familiarizados com a dureza das condições , o clima e a dieta, desprezavam os soldados vindos do Norte e Nordeste – “mandai Mãe de Deus, mais uns dias de Minuano( o vento forte e frio que sopra do sul) pra acabar com tudo que é baiano” -  mas foi a primeira vez em que brasileiros de vários estratos sociais e de diferentes províncias se encontraram e a troca cultural resultante disso foi muito duradoura; nessas trocas, se mostram as verdadeiras histórias da guerra e baseados nelas os contos apresentados aqui se constroem; presente e passado, o ser humano – nós e o outro – somos os fazedores da história; conheçamos, então, esses seres humanos e vejamos o que eles têm para contar...na guerra, o Brasil aprendeu a se ver por inteiro...


CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - AO LEITOR


Caros Amigos

A Série que começarei a apresentar a vocês nasceu há vinte e cinco anos, quando acidentalmente, numa loja de discos, vi um CD da trilha sonora de um documentário chamado THE CIVIL WAR, sobre a Guerra Civil Americana, produzido por Ken Burns, um dos mais completos sobre o tema; li o prospecto de quase trinta páginas com uma avidez que me consumiu um dia inteiro, e persegui durante dois anos a chance de ver esse documentário; ao assisti-lo, me impressionou especialmente a riqueza iconográfica que ele apresentava; depois,  conheci a extensa literatura e filmografia americana sobre o tema, jamais esgotada – desde “O Emblema Rubro da Coragem”, de Stephen Crane, passando por “The Civil War- a History”, escrito pelo brilhante jornalista Harry Hansen, até os filmes “Gettysburg” e “Deuses e Generais”, magistralmente produzidos.  Me impressionou sobremaneira a multiplicidade de interpretações e teorias sobre a origem, a evolução e os desdobramentos da guerra e de como ela transformou a sociedade americana. Me impressionou também o imaginário produzido sobre esse momento da história.

Não pude deixar de me remeter à Guerra do Paraguai, que começou exatamente no fim da Guerra Civil nos EUA; à parte as diferenças entre os dois conflitos, me assaltava a pergunta: por que não se produziu, no Brasil, o mesmo imaginário, o mesmo conjunto de questionamentos tão agigantados nessa passagem da história sul-americana? Meu primeiro contato com alguma literatura fora do âmbito escolar me foi dado por um dileto amigo, que me emprestou o conhecido “Genocídio Americano – A Guerra do Paraguai” escrito por J.J. Chiavenato, uma abordagem diversa do universo didático sobre a guerra; li-o, confesso, com alguma reserva, por causa do endeusamento da figura de Solano Lopez, ditador do Paraguai, colocado como um “paladino contra o imperialismo britânico”; não satisfeito na minha busca por uma abordagem mais equilibrada, finalmente encontrei-a no livro de Francisco Doratioto, “Maldita Guerra”, onde, por detrás de extensa pesquisa documental e iconográfica, o autor nos mostra uma visão mais equilibrada, mais científica e, em muitos aspectos, mais humana; ainda assim, não via esse imaginário que eu buscava, o do homem comum, as histórias da gente, dos embates, do que poderiam pensar homens que , durante cinco anos , se enfrentaram nos esteiros, arroios e campos paraguaios; passei pelas memórias de Dionísio Cerqueira, soldado e depois político e a obra clássica “A Retirada da Laguna” de Taunay, até que, um dia, duas outras leituras me deram o impulso final: o pequeno conto “A Caminho de Assunção”, de Rubem Fonseca, e a “graphic novel” escrita por André Toral, “Adeus Chamigo Brasileiro”; elas me deram o rumo que faltava para ir atrás e pensar as narrativas que viriam das descobertas dessa passagem de nossa história...

sábado, 24 de janeiro de 2015

SEGUIR A VIDA

A vida tem muitas mensagens...

Muitas delas tomamos como lemas e seguimos nosso caminho entre os percalços que essa mesma vida apresenta;cabe a nós ter denodo e personalidade para, a cada tempo, sermos mais fortes do que o que é contra nós; temos do nosso lado a fé, que nos resguarda, protege e aconselha; mas será que, no rumo que escolhemos, somos sábios o suficiente para senti-la e fazer com que ela esteja ao nosso favor?

Temos a tendência a acreditar que, no afã de fazermos as coisas certas, estamos certos em tudo o que fazemos; as circunstâncias nos mostram muitas vezes - e aí entram as mensagens e "toques" que a vida às vezes nos dá - que precisamos repensar e rever o que pensamos e sentimos, para que nossa vida e nossa evolução espiritual possam ser cada vez melhores ; me condoo daqueles que, ao invés de seguir a vida, se aferram e se deixam remoer no passado; se condenam eles ao pior da vida: incapazes de viver o presente, negam a si mesmos o futuro; que evolução essas pessoas podem ter? Ao invés de se ligarem às suas vidas e felicidades, ficam a incomodar-se com as vidas e as felicidades dos outros, incapazes que são, por si sós, de ser felizes...
Mesmo assim, me condoo dessas pessoas e as ponho em minhas preces, para que, um dia , alcancem a evolução que as conduza a um degrau maior na evolução de suas vidas...

Vida, então, que segue, caros e caras...

Até o próximo post!!!

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

AS FALSAS DEMOCRACIAS


      Caros e Caras

Hoje, ao ler a matéria do Yahoo sobre as críticas à forma física da repórter Fernanda Gentil, não pude deixar de me lembrar de uma frase que foi mote em uma discussão em que participei há alguns meses atrás: “sabemos muito bem lutar pela diversidade do ecossistema, mas desleixamos da luta pelo respeito à diversidade humana”
Como chegamos a tanto? Lembro de minhas leituras de adolescente, me debruçando sobre Gilberto Freyre, derrubando o mito da “branquização” do Brasil e levantando a bandeira da mestiçagem como única saída para as mazelas do preconceito e da falsa ideia de eugenia que sempre pautou a cabeça de muita gente na época; nos anos 60, surge o mito da “democracia racial”, onde o Brasil era visto como o país onde não havia preconceito e nem segregação e que se vivia melhor do que o malfadado sul dos EUA, onde os negros tinham lugar segregado nos ônibus, nos bebedouros, banheiros e quaisquer outros espaços de convivência; mas pergunto: será que vivíamos mesmo essa democracia, desse jeito tão desejado?

Hoje, não nos limitamos mais à raça; queremos regular o tipo físico, os padrões comportamentais, a vestimenta, a maneira pela qual nos expressamos e as coisas mais recônditas de nossa intimidade sofrem a patrulha dos que “acham-se árbitros da maneira certa da sociedade”; será que vivemos, realmente, o que defendemos quando falamos de “diversidade” e “sustentabilidade”? As duas, interdependentes, são as inspiradoras do mundo moderno, mas, em muitos aspectos, são apenas cosméticos que mascaram atitudes muito, muito mesquinhas; a tendência atual da sociedade em rotular e em criticar aquilo que não se coaduna com ela, a ponto de atacar de forma virulenta quem não se enquadra, atenta muito contra o verdadeiro espírito democrático, que, em sua mais límpida expressão, tem como pilar exatamente a diversidade e o respeito ao direito de todos de livre escolha e arbítrio sobre suas vidas e opiniões, que vai contra o que mais se faz nesses tempos de padronização, photshop e botox: o culto a uma perfeição impossível e a crueldade com quem está “fora dos padrões”; assim, a democracia – qualquer que seja ela além da política – se reduz à letra e atitude mortas;

As mostras de intolerância – desde impropérios escritos nas redes sociais à violência homófóbica ou religiosa radical – para não falar do extremismo com que se trata quem não é da sua “tribo” mais uma vez derruba o mito das “democracias” e “paraísos de convivência” tão decantados; não sabemos respeitar o nosso próximo, somos violentos à menor perturbação – a morte do surfista Ricardo dos Santos numa discussão banal com um policial, que deveria ser o mais centrado possível numa situação-limite, mostra o quanto somos intolerantes e afeitos à mais pura e simples violência como resolução para tudo; numa interessante contradição, nos condoemos do traficante brasileiro Marco Archer, condenado à morte por um crime que leva tantos e tantos jovens ao abismo, mas não temos o mesmo pudor ao linchar sem provas uma pessoa por simples rumores em redes sociais; que democracia é essa em que vivemos? A descrição do antropólogo Claude Lévy-Strauss do “homem cordial” há muito perdeu o sentido; somos seres cruéis, capazes de tudo para denegrir, derrubar e vilipendiar o que quer que nos atravesse o caminho ou seja diferente; a diversidade virou ilusão; a democracia, falsidade; somos como Narciso, que, no insight sensacional de Caetano Veloso, “acha feio o que não é espelho”;


Assim somos nós, democratas de fancaria numa falsa democracia...

sábado, 11 de outubro de 2014

CRÔNICAS DA CASA ALTA 9 - UMA POESIA



UM BANCO NA PRAÇA

O Banco de praça
É poesia de espera
É conto de encontro
É crônica de movimento
É soneto de lembrança
É Elegia de Saudade
É estado de arte
Da praça
É o que acolhe
Abraça
Consola
É parada
Meditação
Além de tempos...

(Thomé Madeira)

sábado, 13 de setembro de 2014

ALUÍZIO E SATÔ - UMA HISTÓRIA DE AMOR



Os que conhecem a obra de Aluízio Azevedo, sabem bem que, como fiel seguidor da escola Naturalista, sempre procurou mostrar, dento do matiz da época, todos os desdobramentos de uma sociedade, suas transformações e, sobretudo, suas mazelas, sempre fazendo do pano de fundo de suas histórias seu maior personagem; mas ele, igualmente, foi protagonista de uma grande história de amor, nos seus tempos no serviço diplomático; no seu primeiro posto, em Yokohama, Japão, tomou-se de amores por Satô, uma jovem gueixa que trabalhava em uma casa de chá nas proximidades do consulado; de intensa paixão torna-se amor tórrido, que vence o antes taciturno Aluízio; vive cada dia desse amor como se fosse o último, como a prever que não duraria; transferido para La Plata, Argentina, insta em querer levá-la, mas Satô, presa a uma dupla tradição - a primeira é que uma gueixa tinha de cumprir um "tempo de obrigação" que a prendia à casa em que servia; a segunda, ela não poderia se desligar de seus pais, já muito velhos, obrigada igualmente pela tradição a cuidar deles até que morressem; a última vez que a vê é exatamente quando se despede dela no cais,a caminho de seu novo posto; os colegas que serviram com ele na Argentina lembram-se dele como "macambuzio, de rosto fechado, raramente a entabular conversa; muitos sabiam quem ele era pelos livros que tinham lido, mas ele parecia nem querer se lembrar desse tempo, como se fosse nada, um quê sem importância"; uma vez conseguiram arrancar dele apenas uma frase, quase um desabafo:
"Hoje não preciso mais escrever romances para comprar melões". Morreria no estrangeiro, e, dizem os que arranjaram o seu funeral que, no ataúde, entrelaçado junto ao terço que trazia nas mãos, uma fita de seda bordada, que enlaçava um ramalhete de flores dessecadas de cerejeira...


terça-feira, 9 de setembro de 2014

RETURN TO A VIEW - UM CONTO



Florença, Agosto de 1977

"Debruçou-se na janela e contemplou longamente o Duomo, deixando os sentidos livres para absorver todas as sensações daquele momento; parecia que nada havia mudado; os mesmos eflúvios, a mesma brisa soprando do Arno, o farfalhar das asas dos pombos em revoada, o cheiro dos produtos vendidos; a música, esta sim, tinha mudado; não mais as dolentes canções de amor, mas uma mistura de ritmos que ia desde os latinos ao rock. Procurou isolar isso, retendo apenas o que tinha  de lembrança...
Os dedos correram pela velha esquadria de madeira, como que procurando algo; logo ela cedeu um pouco no ponto onde ele buscava, revelando um pedaço de couro velho, amarrado por um cordão também de couro; puxou-o e tomou nas mãos, desenrolando-o sem pressa; dentro dele, um pedaço de papel, igualmente enrolado e amarrado por um cordão dourado; ele não continha mais as lágrimas enquanto abria o cordão e desenrolava o pedaço de papel; reconheceu a caligrafia elegante, o jeito suave das letras, respirou fundo e leu;

'Florença, Agosto de 1910,
Caro Robert,
De três coisas uma: ou leremos juntos esta carta, ou lerei eu sozinha ou você sozinho; não importa; a promessa que fizemos foi que , no dia que pudéssemos, voltaríamos a este mesmo lugar e abriríamos para ler o que escrevemos no começo de nossas vidas, para ver quão sonhadores fomos e quanto poderíamos ousar sonhando até realizarmos tudo, para apenas descobrir que ainda haveria tanto a sonhar e realizar, logo eu , que sempre fui tão cheia de realidade, tão presa no chão com meus pés; me ensinaste a voar, a alcançar o céu, a viver cada parte de mim sem ter pressa de descobrir tudo; me deste com teu amor asas pra alcançar lugares onde jamais eu tinha ido; agora, meu amor, voemos juntos, até onde nossa vista alcançar; te amo, Meu Robert, e te amarei por todos os dias da minha vida. Te fiz prometer que jamais veria o conteúdo desta carta até que se cumpra o nosso tempo, ou passaremos para os filhos, que poderão ler o que vivemos então; que nosso amor seja o supremo arauto de nossa felicidade...

Amor por toda a vida,
Sua 
Lucy'

Ele ficou em silêncio por longo tempo, as lembranças daquele amor preenchendo os pensamentos; logo o silêncio foi quebrado por batidas leves na porta, a voz da filha e da neta  preenchendo o pequeno quarto.
- Está tudo bem, papai? - Perguntou a filha com ar preocupado - Não vimos o senhor descer para o café da manhã...
- Está tudo bem, filha, tudo bem. Venham aqui, quero mostrar uma coisa.
Ele mostrou a elas então o que encontrara e contou a história de como tudo aconteceu. O semblante curioso da filha e da neta deu lugar à emoção, e as duas se abraçaram e choraram.
- Não chorem, não é uma história triste; ela está mais viva do que nunca em cada palavra que nós lemos; ela não gostaria de nos ver assim, não é mesmo?
Desceram para o desjejum e depois passearam pela Piazza del Belvedere,  ele reconhecendo cada lugar e contando para a filha e a neta a história de como ele e Lucy se conheceram; de repente, pareceu a ele sentir uma presença familiar; virou-se ligeiramente e a vislumbrou, os mesmos olhos verdes, o mesmo cabelo castanho, o mesmo sorriso encantador, vestida no redingote azul e com o chapéu de palha com um botão de rosa...
Ela sorria...

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

CRÔNICAS DA CASA ALTA 9 - UMA POESIA



BECO DAS GARRAFAS

No Rio
No Beco
A Fossa
A Bossa
Dançam meio que estranhas
Uma de derrotistas patranhas
Outra de românticas manhas
Uma conquista o mundo
Outra canta e decanta
Os amores que não se permite
Mas que o âmago insiste
Em buscar no limite
Canção de uma
Lamento de outra
De bar em bar
No beco
Se enlaçam
Dançam
Se entrançam...

(Thomé Madeira)

sábado, 26 de julho de 2014

RESENHAS E AUTORES - VISÃO DE UM MARANHENSE SOBRE A ARTE DO BRASIL 2

A poeira da Copa baixou e agora buscamos outro rumo; deixamos a expectativa pra Russia 2018; vamos trocar a pinga pela vodka, tirar os casacos de dentro do guarda roupa e vamos embora..mas isso é pra 2018...
Por ora, vamos continuar nossa viagem textual por esse Brasil tão artista e tão especialmente vibrante, buscando seus sensíveis videntes e visionários, ou mesmo simples cronistas desse nosso tão diverso cotidiano...
Ainda neste post falemos um pouco mais de futebol, apenas pra fecharmos com um autor  que era mais que um simples comentarista; assim como um outro autor que mencionarei aqui, mas músico ao invés de escritor, este passou sua paixão para o que seria simplesmente a observação fria do esporte e o apontar de virtudes e defeitos; ele derramou sua prosa com uma habilidade sem igual, fazendo do espetáculo mais que isso; ele o fez literatura...Ninguém menos que Nelson Rodrigues...


Não falarei aqui do Nelson polêmico, do Suzana Flag das histórias que desnudam hipocrisias e pecados que os protagonistas delas sempre tentam esconder, mas que, mais cedo ou mais tarde, se revelam;  não vou falar aqui do Nelson achincalhado, vilipendiado como o "Tarado", o "destruidor da família", ou coisa que o valha...Ruy Castro, no seu excelente "NELSON RODRIGUES - O ANJO PORNOGRÁFICO", já discorre muitíssimo bem sobre o tema;
Falarei de outro Nelson, o do apaixonado por futebol, que trouxe uma verve nova ao texto esportivo, dando-lhe dimensão, intensidade e , acima de tudo, alma; tudo o que vemos dos modernos cronistas esportivos, desde osmarianas entonações, passando por grandiloquências lucianodovallescas até "galvãonices" nem sempre benquistas, devemos a esse grande escritor brasileiro chamado Nelson Rodrigues...Torcedor apaixonado do Fluminense, era de frequentar quase religiosamente os jogos, embora seus problemas frequentes de visão não o deixassem distinguir um time do outro, mas nem isso diminuía sua paixão e sua habilidade - marcou sua prosa futebolística cunhando expressões do tipo "complexo de vira-lata", frase que foi o símbolo da derrota brasileira em 1950 (confesso que sonhei com uma final Brasil x Uruguai nessa última copa, mas, seteaumescamente falando, melhor não lembrar). Junto com seu irmão Mário Filho, consumado editor - devemos a ele o vetusto porém dinâmico "JORNAL DOS SPORTS", ainda no seu clássico papel róseo - agitou a cena esportiva da época; mas deixemos que ele mesmo dê o seu recado, no livro (link abaixo) "A Pátria de Chuteiras", em outra de suas expressões lapidares...Mesmo sendo um tricolor apaixonado, sabia reconhecer a igual paixão de outros torcedores, como estas palavras sobre os rubro-negros, tradicionais rivais dos tricolores...






http://www.ediouro.com.br/lancamentosdenelsonrodrigues/livros/ImagePatriaDeChuteiras%20em%20Baixa.pdf



segunda-feira, 7 de julho de 2014

CRÔNICAS DA CASA ALTA 8 - UM CONTO



Ele esperava já com uma inquietação sem limites. Faltavam cinco minutos para o filme começar e ele já estava com os ingressos na mão, olhando de um lado para o outro da rua. Será que ela não viria? Já fora muito vencer a timidez para fazer a ela o convite , depois de um tempo de ensaios na frente do espelho; já fora igual desafio vencer as troças da irmã mais nova, vendo-o indeciso entre qual camisa ou qual gravata usar, o terno ou o sapato certo. Esperava, e esperava...
Lembrou-se então de quando a conhecera, quando foi comprar uma gravata nova na loja A Exposição, para usar no casamento de um amigo;  tinha aproveitado a hora do almoço, pois estava atulhado de serviço no Ministério da Viação, no qual recentemente tomara posse como servidor; o amigo era um dos mais antigos, o único dos de infância com quem ainda mantinha contato. Os outros ou tinham saído da cidade ou tinham suas vidas tão ocupadas que não havia tempo para um contato mais próximo.
Então, ela. 
Ele prestou primeiro atenção nos cabelos castanho-escuros arrumados num coque elegante, que emolduravam um rosto levemente ovalado, de olhos verdes vivos e um sorriso leve, que o fez corar. Ela igualmente corou, baixando o rosto, como que não querendo retribuir o olhar; o tempo pareceu parar entre os dois...
Compra feita, voltou para o trabalho, mas saiu da loja não mais o mesmo...e nem ela...
Depois foram as passadas pela loja sob as mais variadas desculpas, os "encontros casuais", no fim do expediente, até que trocaram as primeiras palavras, a conversa fluindo dia após dia, até que , reunindo toda a coragem que tinha, a convidou para ir ao cinema, na sessão soirée do Éden; antevendo a negativa, surpreendeu-se com a resposta sorridente.
- Por que não? Não tenho nada programado para essse fim de semana.
Não era a resposta que ele esperava. Sentiu-se um tanto constrangido, achando que ela só aceitara porque nada melhor havia pra fazer. Mal ele sabia que a resposta tinha sido porque não havia outra melhor; ela ansiava por isso, mas não queria mostrar-se "oferecida", lembrando-se dos conselhos da tia Arminda, que dizia que "moça de familia espera o homem fazer o convite e mesmo assim, demora pra dizer sim"...
A exasperação terminou quando ele a divisou virando a esquina, o tailleur azul delineando as formas, num passo calmo, não parecendo estar atrasada. A ansiedade nele desapareceu quando ela chegou; ele a beijou no rosto, avisando que faltava pouco para o filme começar. Tomando-a pela mão, acompanharam o lanterninha até os lugares do andar superior; o filme já estava nos créditos...
Assistiram a fita sem piscar, as cenas da história de amor tocando-os e fazendo se darem as mãos, ficando assim até que ele, numa inciativa, beijou-a ternamente nos lábios...Ela não resistiu; deixou-se levar, o beijo ficando mais intenso, até que se sentiram como se nada mais houvesse...
Saíram enlevados da sessão, de braços dados,  num andar sem pressa; já um pouco longe do cinema, ela percebeu que faltava o brinco da orelha esquerda; era um brinco de pérola que fora presente da Tia Arminda quando ela completara quinze anos, do qual tinha muita estima, Eles voltaram e encontraram o cinema quase fechando,mas ainda conseguiram falar com o lanterninha, pedindo que desse uma vasculhada nos bancos pra ver se não o encontrava. Depois de procurar por todas as partes, mesmo na platéia baixa do cinema, não encontrou o brinco. "Talvez tenham encontrado e levado", finalizou, sentido.
Ela sabia que Tia Arminda ia ficar chateada, mas, o que se há de fazer? Ele a tomou nos braços e ficaram por um tempo em silêncio, contemplando a luz dos postes da Rua Grande. Ela virou-se para ele e o fitou , ainda assim, contente.
- Perdi um brinco, mas encontrei um tesouro em você - disse, com um sorriso que o encantou.
- Então ambos encontramos. - ele respondeu ao sorriso com um beijo.
A vida foi seguindo, os dois cada vez mais juntos. Veio o casamento, a progressão da carreira dele, a aprovação dela como professora primária. Os filhos crescendo,  cada qual seguindo suas vidas; mesmo assim, o cinema jamais deixou de fazer parte, em todas as soirées de fim de semana, ou mesmo nas tardes, sempre um algo mais a ver, a sentir. Então vieram os netos, alegrando ainda mais um lar sempre feliz, até que a doença a levou, tão de repente que ele não teve nem tempo de chorar, se despedir...Chorou depois, na falta dela, a mão segurando o brinco, do qual jamais encontrara o outro par...Agora era a solidão, apenas quebrada pelos netos, que o alegravam e faziam-no ainda viver...
Os olhos marejaram com o que ele via. O simbolo de todo um passado, de toda uma história de vida, dele e dela, agora virava um amontoado de poeira e entulho. Era o fim de um tempo, O dono morrera e os herdeiros venderam o cinema a uma cadeia de lojas; a fachada fora preservada, mas todo o interior estava sendo demolido. Caixilhos das janelas, restos de vitrais, ventiladores estropiados jaziam em montes no interior do cinema, outros tantos objetos em caçambas de entulho. Ele entrou,  o lenço no nariz pra evitar o excesso de poeira; reconhecia cada parte daqueles escombros como se fosse alguém morto, ao qual se negara uma sepultura digna.
De repente, junto a um monte de bancos quebrados , pareceu ver algo que brlhava; afastou os pedaços de uma fileira deles, retirando os pedaços de madeira e reboco espalhados no chão. Quando conseguiu remover tudo, ele não conseguia crer no que seus olhos viam: diante dele, depois de tanto tempo, o brinco perdido!!! Nunca o conseguiriam achar , pois, ao cair, ele encaixara no ressalto de um dos bancos, ficando escondido todo esse tempo. Apenas quando os bacos foram removidos ele tinha se soltado, ficando ali sujo de poeira; ele limpou-o com o lenço, beijou-o e guardou-o no bolso. Um encarregado que passava viu-o e perguntou o que fazia ali.
- Só levando uma lembrança do velho cinema, meu filho - disse, com um pedaço do ladrilho na mão - Vivi momentos muito felizes aqui.
O encarregado olhou para ele com um ar de estranheza, como se o achasse louco; saiu dali com pressa, com ar compngido. Tomou um táxi para o Cemitério do Gavião e, lá chegando, dirigiu-se à sepultura dela, trocando as flores e depositando o par de brincos junto com o buquê. Olhou para a foto dela na lápide, o mesmo sorriso que o encantara há tantos anos. Apenas a fitou e disse, com ar de alívio, como se tirasse o peso dos anos das costas; "eu encontrei, meu amor, eu encontrei". Uma leve brisa soprou e só então ele reparou que já era fim de tarde, o sol se pondo num vermelho intenso. Tomou outro táxi e voltou pra casa, pela primeira vez, sem tristeza no semblante, sem pesar. Ao dormir, sonhou que era o mesmo rapaz de antes, a esperá-la na porta do cinema; ao vê-la chegar, abraçou-a, beijou-a e, sem que ela pudesse dizer palavra, pôs nas mãos dela o par de brincos tão amados...