segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

MARANHEI - A VIAGEM - PARTE 2 - AMIGOS

"Por isso se for preciso
Conte Comigo
Amigo, disponha
Quero que saiba
Que mesmo modesta
Minha casa será sempre sua
Amigo"

(Excerto da canção "Amizade Sincera", de Renato Teixeira)


                     O que podemos falar da palavra amizade? A primeira interpretação que tive, ainda criança, foi a de que era o mais precioso dos tesouros na Terra, maior do que o ouro mais precioso; isso ouvi da boca do seu Zé Lauro, vizinho de minha avó, em meus pueris tempos na rua das Cajazeiras, quando o acompanhava em suas caminhadas em fins de tarde há muito distantes; assim conheci, de tão preciosas palavras, o valor da amizade...
                            Nesta segunda parte, encontros, reencontros, emoções das mais diversas, mas, acima de tudo, o aconchego no coração dos amigos; onze anos de tantas águas corridas de tantas marés passadas, de tantos ventos soprados, de coisas novas e histórias antigas, saúdo aqui os amigos de todos os tempos, presentes e ausentes, além de nomes e rostos; amigos mais que todas as coisas boas deste mundo!!!


Começamos por um tesouro dourado, o pôr-do sol sobre a mágica baía de São Marcos, o começo dos reencontros; ansiedade sem par...
Casa das Dunas, o primeiro cenário desse primeiro grande encontro
À vista do mar, esperamos, a brisa como carinho nesse dia tão especial.
Os primeiros sorrisos dos amigos, promessa do que está por vir...
A noite caindo na Litorânea, em luzes e ventos...


O show começa, a atmosfera perfeita de diversão e aconchego
Nós em música e  felicidade
E chegam sorrisos, memórias e felicidade; mesmo em tanto tempo, nossa alma nos fez além; jamais deixamos de ser sonhadores, ainda plenos da paixão de viver

Nós indo a outros abraços de amigos, revendo coisas tão vividas
A noite de um segundo dia e o calor dos amigos aumenta, com a felicidade em tons cor-de-rosa, no delicioso recanto da Cohama, abraços e mais sorrisos, o grande dia se aproxima; entre sabores e conversas, nos descobrimos mais amigos

O carinho cor de rosa que nos recebeu, rara beleza





E brindamos ao tesouro de nossa imorredoura amizade

Lembranças dessa noite especial, relatos de iguais viagens
No Olho D'Água, os olhos marejam de felicidade e saudades; mais uma vez brindamos aos dias felizes, aos viveres tão saborosos...



No descortinar da casa, sensibilidade, carinho e o esmero da acolhida calaram fundo em nossos corações


Que tantos momentos pode guardar algo que queremos bem? Mesmo a mais despretensiosa peça é cronista de tantas lembranças...


O coração florido de carinho, a alma plena de congraçamento, que podemos mais querer de tão queridos amigos?



E o Grande Dia do Grande Encontro Marista 1984 chega!!! Boate Structura, Cohama, 27/12/2015;  os jovens que começaram com sonhos, anseios e esperanças, fizeram caminhos, plantaram vivências. conceberam realizações e cimentaram carreiras; nesse dia, porém, somos novamente aqueles jovens sonhadores, cheios de alegria, uma explosão de felicidade transformada em enorme abraço fraterno


























P. S. - Não estava preparado para sentir a explosão de emoções desses dias, onde tantas lembranças afloraram, tantos acontecimentos se reviveram e tantas surpresas maravilhosas aconteceram;  mais feliz senti-me de poder vivenciar isso ao lado de minha esposa Leonor, cuja luz foi a grande fortaleza em todos os momentos; reforçou-me muito mais o laço de amizade e de carinho que, mesmo depois de uma onzena de anos, jamais se desvaneceu; que seja sempre maior esse tesouro divino e maravilhoso chamado AMIZADE!!!

E, falando em Divino, na próxima parte desse nosso relato, falaremos da maravilhosa diversidade de fés e credos que tão grandemente permeia a cultura do Maranhão; entre o religioso e o profano, as marcas de uma cultura...

Até Lá, e VAMOS MARANHAR!!!








sábado, 9 de janeiro de 2016

MARANHEI - A VIAGEM - PARTE 1



"Não sonos turistas, somos viajantes - falou calmamente Porter, acendendo um cigarro.
- Mas qual a diferença? - indagou Tunner, curioso 

- O turista - respondeu Kit, com um sorriso - pensa em voltar pra casa assim que ele pisa pela primeira vez no lugar onde visita; o viajante pode simplesmente não voltar...segue , sempre, em frente; 
- Então sou um turista - respondeu Tunner - e Port é um viajante; mas e você, Kit? 
- Estou entre os dois - respondeu ela, olhando o horizonte..." 

(Paul Bowles, do livro "O Cèu Que Nos Protege") 

Assim nós, turistas com alma de viajantes, dividimos com vocês, que apreciam nossos blogs, essa narrativa de viagem, em que cada espaço se revela um encantador universo de cores , sons, aromas e movimentos, onde fé, vida, arte e cultura se traduzem em um único verbo, um chamado a exercitar os sentidos...Vamos MARANHAR? No centro histórico de São Luís, numa das ruas por onde se pode entrar para conhecer as maravilhas dessa obra de arte ao ar livre, existe um grupo de barracas onde, do paladar à visão, tudo é deleite; mas o mais interessante delas são os frontões, cada um mostrando um aspecto da cultura, da arte e da natureza do Maranhão; através deles, como um álbum, se mostram os símbolos dessa tão sedutora região. Maranhemos, então... Agora começa, a quatro mãos, o descerrar de nossa viagem.

Nosso primeiro olhar sobre a cidade se deu  do céu, no tremeluzir das primeiras horas do dia; parecia que podíamos alcançá-la com as mãos, se assim quiséssemos...



Cor e Movimento, a alegria sensual entre o religioso e o profano

O ritmo caribenho que, ao desembarcar por estas terras, descobriu sua alma maranhense, o balanço ao sabor das ondas...

Que se abra o pano para o drama e a comédia, para a poesia que se faz em cena, entre o farfalhar dos leques e o ruflar das sedas, entre risos e lágrimas, a arte se faz viva.

Dos teus azuis, que te batizaram, a todas as cores em que viajas, tu, azulejo, é alma e corpo dessa terra

Da terra dos velhos quilombos, pelas mãos dos calhambolas, o barro se faz vivente, conta histórias, urde vidas.

Quantas vozes animadas, em sorridentes falares, quantas águas já correstes, ó fonte  tão secular? Tu dizes "apenas sei da lenda que em mim dorme, da serpente encantada, que em minhas entranhas repousa"
Sobrados que são vigias, de tanto tempo passado, se enamoram do futuro, no debruçar das sacadas, no mistérios dos seus dias, a encantar os passantes...

Da janela de mistérios, dos amores suspirados, dos olhares ofertados, histórias de bem-querer; dos vigias d'outros tempos, apenas guardas os ventos, que sussurram sem cessar

Nasceste orgulho de França, de Espanha triunfou, de Portugal se encantou, de tantas nações inspiras, encantas e admiras, és tu, Ilha de tantos amores!!!

Todos somos mês de junho, enfeitados de veludo, bordados de brilho e cor, bem encantados de amor, bailando ao som da promessa, de trazer esse boizinho, para alegrar essa festa!!!

Que mais doce então será? Esse doce do Divino, de espécie como se dá, ou todo o sabor da vida, que então virá?

O gosto fica na boca, lembrança no coração, de coco, salgado então; não importa como seja, o beiju que vai à mão;

O bate-bate aparece, como som ou marcação, de anúncio de delícia, caranguejo de montão, sabor, maranhensidade, que me morro de vontade...

Mistério, encantaria, mascarado vem então, pra curar o meu boizinho, Cazumbá, com seu condão

Eu não faria justiça, se nesse tanto falar, me esquecesse da delícia, do nosso arroz de cuxá, terra e mar tão unidos, na arte do paladar

Lençóis da Mãe Natureza, lagoas de admirar, nosso tesouro nas dunas, águas tal iluminadas, para nos fazer sonhar

Voo de encarnadas asas, cores suspensas no ar, colorem os céus de poesia, verso bonito de olhar

Paredão de rocha nua, feito pela Mão de Deus, donde escorrem águas mansas, belezas a nos contar histórias soltas no tempo...

Assim , em "voo de pássaro", nos despedimos de hoje, já no fim de sua afã; mas não se apoquente não, guarde o ansioso suspiro, da curiosidade tão chã; prometemos de mãos juntas, tem mais lindeza "amanhã"!!!!

P.S.  - No próximo capítulo, teremos o tema "Amigos", onde emoção e memória são os guias de então; tempo de recordação, congraçamento e abraços, de  histórias de juventude, alegrias e sorrisos

Até Lá!!!!

sábado, 28 de novembro de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VELUDO VERMELHO - PARTE XIX

CHARLTON HOUSE, 1890

Aurélio parecia ter feito as pazes com sua vida.

O casamento com Agnes transcorria feliz, os filhos tinham crescido e seguido suas vidas; Anna estava noiva de um promissor oficial da Marinha Real e Aurélio, mesmo a contragosto do pai, seguiu carreira militar e estava por se graduar em Sandhurst; o terceiro filho, Matthew, já nascido em solo inglês, era quase saído da meninice; Aurélio ainda recebia com alguma regularidade cartas da irmã, que cuidava do patrimônio que coube a ela no espólio do pai; não se casara novamente, pois ela dizia em suas cartas que “se cansara de esperar por promessas que não se cumpririam; os jogos amorosos agora eram um enfado”; ficou a pensar na irmã de outros tempos, ansiando por aventuras românticas; os tempos mudavam e as pessoas também...

Seus pensamentos foram interrompidos pelo som de passos vindos do corredor; a criada trazia uma bandeja com chá e madeleines recém-assados, cujo aroma se espalhou pela sala; sem dizer palavra, deixou-a sobre a mesa e afastou-se. Ele se limitou a sentir o aroma dos doces, ainda relutando em comer; ouviu novamente o som de passos, desta vez mais leves e compassados.



- Que pensamentos são esses que tanto o perturbam, meu querido? -  Ela percebeu através da calma o olhar profundo e preocupado.
- Sabes que reneguei todas as coisas de meu passado na guerra, todas as dificuldades que passei; tentei com todas as forças manter isso longe da família; a opção do meu filho simplesmente me tirou o chão.
- Ele nada mais fez do que você mesmo quando decidiu se alistar, não lembra? O seu pai também não aprovava, mas assim mesmo fez o que fez e quase não consegue se despedir dele.

A observação da esposa o chamou à razão; ela sempre sabia o momento certo de chamá-lo ao bom senso, ao equilíbrio; essa soma de forças fazia com que tudo na vida deles, das finanças à relação com os filhos, fosse sempre assim, sem percalços.

Deu as mãos a ela e, por fim, provaram do chá e dos doces..





SPION KOP, Africa do Sul, 1900

O calor era insuportável.

Os nervos dos homens já tinham alcançado o limite; o entusiasmo inicial já os havia abandonado há tempo; acossados pelos tiros precisos dos rifles Mauser dos Boers e sob fogo constante de artilharia – os canhões inimigos não podiam ser localizados, pois já usavam a nova pólvora sem fumaça, que tornava inútil o treinamento dos observadores de artilharia, que se orientavam pela fumaça dos disparos – muitos se desesperavam, igualmente atormentados pela sede e pela fome; a ilusão de uma vitória fácil sobre os teimosos fazendeiros sul-africanos se desfez...



O capitão Aurelio Charlton – chamado pelos homens de “Captain Aurell”, pela dificuldade em pronunciar seu nome brasileiro – municiava sua pistola Mauser C96 enquanto usava um periscópio para sondar o horizonte; para surpresa dos soldados, o topo do monte era da mais dura rocha, impedindo que se cavasse uma trincheira profunda; o resultado foi que embora dominassem a colina, ficavam expostos tanto ao fogo de artilharia quanto aos tiros precisos dos rifles. O local ficou juncado de mortos e feridos e o cheiro já era pungente demais para suportar.



Foi então que ouviram os gritos.

Uma leva de centenas de Boers atacou a colina, avançando sem medo e com um aguerrimento que surpreendeu os britânicos; se seguiu uma luta sem quartel, onde o inimigo, mesmo sofrendo pesadas perdas, conseguiu empurrar os ingleses para um terreno onde não havia muita chance de defesa. Aurélio tentava organizar uma resistência, mas os homens, debilitados pela sede e pelo cansaço, estavam no fim de suas forças e os reforços falharam em levantar o cerco; enfim, vendo que nada mais podia fazer, o oficial comandante ordenou a retirada, deixando os mortos e os feridos que não podiam ser resgatados no topo da colina...



Carregado por dois soldados, o capitão Aurelio, ferido na coxa e no antebraço esquerdo, foi conduzido a uma ambulância, onde um sargento indiano, de baixa estatura e com um pequeno bigode, o ajudou a acomodar-se, enquanto um enfermeiro verificava seus ferimentos; com um misto de raiva e desapontamento, olhou ao redor e viu, do outro lado do rio Tugela, a colina que tantas vidas havia custado, fruto do desconhecimento e da incompetência de generais pomposos que não se importavam com os homens; insistiu em ficar para ver a situação dos soldados, mas o oficial médico disse que ele precisaria de mais cuidados no hospital de campanha, se quisesse sobreviver ; a ambulância preparava-se para partir quando ele se dirigiu ao indiano que o ajudara.
- Sargento, veja que esses homens recebam o melhor cuidado possível; lutaram com muita coragem e não merecem ser deixados de lado.
- Me assegurarei disso,senhor – disse o indiano.
- Muito bem, fico mais tranquilo em saber que posso contar com isso, sargento...
- Gandhi, capitão; Mohandas Gandhi, do Serviço Indiano de Ambulâncias.

Aurélio respondeu a continência e deu duas pancadas no madeirame, sinal para que a carroça seguisse em frente; teria muito a relatar aos seus superiores, depois que saísse do hospital...




Créditos das Imagens - Google Images

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VELUDO VERMELHO - PARTE XVIII


Eliza sorriu enquanto ele conferia o GPS.

A bucólica paisagem campestre inglesa era um alívio, depois do burburinho londrino; ele imaginara uma cidade fleumática, de tipos formais e silenciosos; espantou-se com a agitação, que ele achava tão tipicamente americana.

- Essa Londres é bem dos livros de mistério ou de peças de teatro, meu amor; depois dos Beatles e dos punks, ela jamais foi a mesma, mas mesmo assim é encantadora – disse ela, divertindo-se com o espanto dele.

Sorriram juntos, enquanto seguiam adiante.

As estradas rurais, mesmo com seu visual encantador, revelaram-se um desafio; mesmo ela , tendo residido algum tempo no país, jamais se aventurara fora de Londres sozinha, e, quando viajava, sempre era com alguém que conhecesse bem o caminho; por sorte, tinham descoberto no apartamento de Derek um guia das casas de campo da região, onde Charlton House aparecia como uma das mais antigas casas descritas; “vai ser mais fácil assim”, pensou ele.



Isso seria mais fácil dizer do que fazer.

Embora figurasse como uma das casas mais antigas daquela parte, havia pouca coisa sobre a localização, que , segundo o guia, dava apenas uma referência de uma colina próxima, densamente arborizada, que a fazia ficar oculta aos que vinham pela estrada.

Uma estrada vicinal de macadame, quase escondida pelas cercas-vivas que estavam nos lados da rodovia, revelou uma placa onde se via “CHARLTON HOUSE 2 miles”; a estradinha era emoldurada por pedras toscamente talhadas, que davam um aspecto antigo; rumaram por ela até que chegaram a um portão escuro, onde letras douradas formavam um monograma que, certamente, deveria ser o dos Charlton; Eliza desceu e se dirigiu até o portão, apertando a campainha para ver se era atendida; uma voz misturada com estática perguntou se eram visitantes, pedindo que voltassem em um hora, pois o horário de visita guiada começava por volta de duas da tarde; Eliza respondeu num tom firme, e, dentro de poucos minutos, o portão se abria, revelando, no alto da colina, a casa que os tinha intrigado tanto; Walter reparou na cerca branca a uns cem metros da casa, nos fundos, mas procurou prestar atenção no caminho até a entrada. Já os esperava uma mulher aparentemente de meia-idade, cabelos brancos arrumados num coque elegante e de olhos azuis expressivos.


- Bom dia, espero que sua viagem tenha sido agradável – disse a mulher em um tom formal, de uma cortesia que parecia camuflar sua verdadeira expressão – Sou Mavis Lockhart, governanta e curadora de Charlton House; no momento, o senhor Mark Charlton se encontra em Paris a negócios, mas se eu puder ajudar, podem falar comigo.
- Muito agradecidos , Sra. Lockhart.
- É Senhorita Lockhart, minha cara, eu sou filha única , e o trabalho de cuidar de meus pais não deu-me tempo para ter família.
- Perdoe-nos então , senhorita; estamos em viagem pela Inglaterra e aproveitamos para conhecer a casa, pois tem um pouco a ver com uma pesquisa que estou fazendo

Eliza, então, contou a Mavis toda a história desde o princípio, desde o testamento do pai até a circunstância que a levou até lá; a governanta a fitava com olhar inquisidor, como se cada parte da história acendesse uma luz em seus pensamentos; por fim, ela conduziu Eliza até uma sala próxima do vestíbulo, onde uma galeria de retratos de família dominava a decoração; no quadro maior, a família composta do marido, da esposa e dois filhos, uma menina, mais velha, aparentando ter quatorze ou quinze anos, a esposa, sentada numa cadeira de espaldar alto, e um menino, que deveria ter uns oito ou nove anos, abraçado à mãe; ela notou que o homem não assumia a pose formal geralmente encontrada nos retratos de família, mas trocava olhares cúmplices com a esposa e os filhos; outros retratos mostravam as mesmas crianças, mas desta vez não eram pinturas, mas daguerreótipos que mostravam cenas de viagem, de lazer e mesmo de um casamento de família.
- Aqui, um pouco da história da família, minha cara; a propósito, seu nome...
- Eliza Thomaz, sou arquiteta e tenho um escritório no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro;
- Interessante! Há algum tempo uma outra pessoa com este sobrenome esteve aqui, em busca de alguns documentos; a senhora por acaso sabia que, naquele retrato de família que viu, o marido de Lady Charlton era um brasileiro? Ela o conheceu quando o pai tinha negócios naquele país, há mais de cem anos.
- Essa pessoa seria por acaso um jornalista chamado Silvano Thomaz?
- Eu creio que sim; ele deixou aqui um cartão de visita que eu devo ter guardado; ele é seu parente?
- Ele era meu pai, senhorita; e eu estou aqui, como já expliquei, para concluir um trabalho dele. Ele faleceu recentemente e deixou esse trabalho inacabado.
- Eu sinto muito senhora, espero que esteja tudo bem.
- Não se preocupe, isso já ficou para trás; espero não incomodar mais que o necessário
- Não, não será incômodo, por favor, me acompanhe.

Walter e Eliza a seguiram, imaginando que histórias a casa poderia contar...

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VELUDO VERMELHO - PARTE XVII


CRUZANDO O ATLÂNTICO, 1877

Ele contemplava o mar como se a imensidão das águas fosse dar resposta às suas indagações.



Agnes e as crianças ainda dormiam na cabine; levantara mais cedo por não conseguir conciliar o sono com o tempo da viagem; mesmo sendo os dezesseis dias um tempo mais rápido do que se tivessem partido do Rio – vinte e oito dias era o tempo em média que os navios levavam do Rio de Janeiro a Liverpool – ele não conseguia pegar no sono; mesmo assim, a viagem transcorreu sem um transtorno sequer, com tempo bom e mares calmos.



LIVERPOOL, 1877

O frio entrava pelos ossos.

Era completamente diferente do clima de São Luís; ele se lembrava desse frio de outro tempo, nos campos e esteiros do Paraguai; parecia agora, porém, mais forte, apesar do casaco de lã e do chapéu de feltro.



Supervisionou a descarga da bagagem com cuidado, enquanto organizava o transporte até a estação; seria uma longa viagem até Charlton House, onde teriam de fazer contato com Horace Thurnbull, tesoureiro e testamenteiro de Mr. Charlton, para o conhecimento do inventário e a leitura do testamento.



A viagem de trem foi um reconfortante alívio; mesmo com a travessia oceânica sendo tranquila e sem incidentes, preferiam muito mais se sentir com terra firme sob os pés; os campos ingleses foram uma agradável surpresa para Júlio e uma confortável familiaridade para Agnes, que revia o lugar de sua infância; o verdejar que serpenteava pela janela do vagão alegrava sobremaneira as crianças.


A chegada a Sussex se deu por volta das dez da noite, a bagagem novamente descarregada e organizada em carruagens; no pátio de saída, os esperava um homem de meia-idade, suíças brancas emoldurando olhos cinza-azulados sem o menor resquício de brilho.

- Senhorita Charlton, eu presumo? – o homem se apresentou sem o menor traço de emoção, inclinando-se levemente – Sou Horace Thurnbull, guardião do inventário e do testamento de seu pai.

- É Senhora Meira agora, Sr. Thurnbull; este é o meu marido Júlio Meira, e estes são os meus filhos, Anna e Aurélio.

O homem pigarreou, como que a ignorar o constrangimento com a situação que se apresentava; limitou-se a dizer que os aposentos de Charlton House já estavam preparados para recebê-los; com gelada cortesia, sinalizou ao cocheiro que aproximasse a carruagem , onde então Agnes , Júlio e os filhos embarcaram, seguindo então para a casa; Thurnbull, então, embarcou num cabriolé e os seguiu.

Chegaram quase meia-noite; Agnes acomodara bem o pequeno Aurélio para que dormisse sem o incômodo dos solavancos; Anna, por sua vez, dormitava no colo do pai; a porta da carruagem foi aberta por um homem de porte altivo, magro, com um bigode meticulosamente arrumado; apresentou-se como Pritchard, o mordomo, que, tomando Agnes pela mão, ajudou-a a descer da carruagem; os dois lacaios que o acompanhavam se encarregaram da bagagem, levando-a para o interior da casa; Julio, carregando a filha, acompanhou a mulher, entrando na casa acompanhado do mordomo; lampiões foram acesos e, então, o Sr. Thurnbull despediu-se, avisando que viria por volta das duas da tarde, para a leitura do testamento.

A leitura do inventário e do testamento se fez conforme o esperado, com a listagem dos bens de Mr. Charlton, desde propriedades na França, uma villa nas proximidades de Florença, ações ao portador, além do controle acionário da firma do pai, Charlton & Co. tudo isso somado a uma renda anual de 150 mil libras.

Júlio observava impassível a leitura, pensando em como seria a vida daí por diante; uma coisa era ser escriturário, outra era ajudar Agnes a controlar e gerir tudo aquilo; guardou suas suposições para si, enquanto a voz tediosa e gutural de Horace Thurnbull continuava a listar os bens do falecido Sr. Charlton...

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VELUDO VERMELHO - PARTE XVI


O voo chegara em Heathrow com uma hora de atraso.




Desembarcaram com a preocupação de que Derek e Sonja, os amigos de Eliza que moravam em Londres, se desencontrassem deles; viram depois de sair do avião a densa neblina que rodeava o lugar; aquela paisagem já era comum para ela, que tantas vezes visitara a cidade, mas era uma completa novidade para ele, que apenas tinha noção por meio de livros, filmes e material publicitário; agora, era uma realidade que se apresentava; ela segurava firme a mão dele, caminhando em passo apressado, tentando ficar em um lugar que agilizasse a recuperação da bagagem; a azáfama de pessoas e a babel de idiomas que circulavam ali pareceu tonteá-lo.



Derek e Sonja esperavam em um dos cafés próximos e, assim que viram Eliza e Walter se aproximarem, acenaram; Eliza sorriu ao reconhecê-los e Walter sorriu igualmente, respondendo ao aceno. Derek era alto, de cabelos louros finos e olhos azuis, enquanto Sonja tinha cabelos negros e olhos castanhos; abraçaram Eliza efusivamente, pois fazia tempo que não se encontravam, a correspondência esporádica de alguns e-mails trocados ocasionalmente; mas o laço de amizade que os unia era grande; Sonja estudara com Eliza e Derek era um grande amigo que ela apresentou, dando um empurrãozinho para que o relacionamento decolasse.

Agora, ela estava surpresa por ver a amiga com um relacionamento sério; sempre vira Eliza como uma pessoa focada no trabalho, sem muito tempo ou disposição para nada além de estudos e projetos; mesmo o sorriso dava novos are, como se tivesse nascido uma outra pessoa. Walter simpatizara com eles e quebrou-se o gelo quando falaram em português fluente; embora dominasse bem a língua inglesa, ainda estava se acostumando com a atmosfera para ficar à vontade.

Depois de tomarem café, Derek os levou até o estacionamento, onde o carro já esperava; depois de muito tempo de trânsito intenso, chegaram ao apartamento dele no bairro de Bayswater, onde sugeriu que tomassem um banho, trocassem de roupa e descansassem um pouco, antes de começar a andar pela cidade.


- Mas não é o seu apartamento? Imagino que iremos incomodar.
- Nem um pouco. Será de vocês o tempo que ficarem aqui. Eu e Sonja iremos para a Itália em três dias, para passar algum tempo na Toscana; considerem minha casa a casa de vocês a partir de agora.
- Mas temos reservas; como faremos?
- Isso eu posso resolver. Não se preocupe, aproveite seu tempo aqui, vai gostar muito. Ficarei com Sonja no apartamento dela em Chelsea até o dia da viagem.

Walter foi até a cozinha, onde Eliza e a amiga conversavam e falou sobre a oferta de Derek; ela pediu que o amigo reconsiderasse, mas ele recusou terminantemente.
- Não se preocupe, minha amiga; era o mínimo que eu poderia fazer; deixe as reservas comigo; apenas você e o Walter relaxem e curtam a viagem; deixei um mapa sobre como vocês podem localizar a Charlton House; não vai ser difícil, pois ela é uma das propriedades já no começo da rodovia. Ao que parece, apenas uma pessoa toma conta do local e acho que não terão problemas.

Os amigos trocaram abraços e puseram-se a planejar para onde poderiam ir na noite londrina...

domingo, 11 de outubro de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VELUDO VERMELHO - PARTE XV



SÃO LUIS, 1873

Ele acordou com o som dos bentevis.

Ela ainda dormia, o braço enlaçado nele, os cabelos soltos espalhados pelo travesseiro, o respirar leve e a expressão terna que o fez sorrir; parecia que ela sempre revelava um algo mais, como se, a cada tempo, uma nova e encantadora parte dela se fizesse descobrir. 




Pensou no tempo. Fazia um ano e meio que estavam casados, desde que ele criara coragem para falar dos sentimentos dele, de início com pequenas e veladas mensagens, até que finalmente falou a ela do que sentia; esperava uma solene rejeição, mas foi surpreendido com o brilho nos olhos que só os apaixonados possuem; tiveram, porém, de esperar que o período de luto pela morte do pai terminasse e foi com alegria que a cerimônia se realizou, na Igreja da Conceição, onde amigos, companheiros de faculdade e antigos camaradas de armas se acotovelaram para vê-lo se casar com Agnes. A alegria agora era parte de sua vida; tudo o que vivera antes, a dor, os ferimentos e todo o sofrimento da guerra ficaram finalmente para trás;



SÃO LUIS, 1875

O telegrama chegou por volta de onze e meia.

Ele recebeu-o das mãos do estafeta e sentiu que algo que parecia ser um presságio.

Agnes embalava o pequeno Aurélio, enquanto Anna, a mais velha, estava sentada quieta ao lado do berço. A vida corria tranquila; Júlio trabalhava como advogado da Booth Line, companhia de navegação que era responsável pelo tráfego não somente comercial, mas de passageiros entre os portos ingleses e franceses da costa atlântica e os da costa brasileira, de Manaus e Belém até o Rio de Janeiro; tinha igual dedicação com a política local, sendo um dos delegados do Partido Liberal na cidade, com uma possível indicação para disputar a vereança. Embora visse os amigos entrarem nos clubes abolicionistas ou mesmo agremiações republicanas, evitava tomar parte, pois não queria nenhum envolvimento com algo que pudesse comprometê-lo de forma tão radical; pensava no pai, um franco partidário do equilíbrio.



Mas aquele telegrama pesava em suas mãos como um aviso.

Entregou o telegrama para Agnes, que o abriu sem pressa; ela pôs o bebê no berço e afagou a filha por alguns minutos antes de abri-lo; fê-lo em movimentos rápidos e correu os olhos pela mensagem; súbito, deixou que o papel escapasse de suas mãos e recostou na poltrona com as mãos no rosto, chorando e soluçando convulsivamente; ele procurou confortá-la, mas ela não conseguia se acalmar; ele procurou acalmar as crianças, que já se agitavam com o estado da mãe; pegou o papel do chão, leu-o e entendeu o porquê;



Mr. Charlton, seu sogro, que o tinha indicado para o cargo na Booth Line, tinha falecido numa epidemia de febre tifóide em Calcutá; o corpo tinha sido transladado para a Inglaterra e Agnes precisaria voltar a Sussex, onde ficava a propriedade do pai, para ouvir a leitura do testamento e organizar os negócios e propriedades.

Não se enganara; naquele pedaço de papel, estava o sinal de que o mundo dele estava por sofrer uma mudança que ele jamais poderia imaginar...

(Continua...)

Créditos das ilustrações: Google Images

domingo, 4 de outubro de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VELUDO VERMELHO - PARTE XIV


A proximidade dos dois era cada vez mais intensa.

Urgiam-se; as horas eram vividas como se nada mais pudesse existir passada a porta do apartamento dela ou dele; era como uma tempestade circunscrita naqueles metros quadrados, onde nenhum espaço era verdadeiramente suficiente.

Dividiam igualmente experiências de ambos os ambientes de trabalho; ele discorria os encontros de assessoria com empresários e autoridades, falava das coisas que tinha de engendrar no processo de construção de imagem e mesmo os pronunciamentos e discursos que tinha de escrever para aqueles nos quais, intimamente, sequer acreditava; ela dividia com ele as ideias e projetos que chegavam ao escritório; divertiam-se com as bizarrices que encontravam na jornada de trabalho e se admiravam das coisas interessantes que igualmente apareciam;

Mas sempre no meio de tudo o que discutiam a história das cartas e das fotos aparecia como que um lembrete de que aquele passado, que pouco a pouco se deixava descerrar, estava ali, ao alcance, como que a chamar para ser ainda mais deslindado; conversavam do assunto entre uma coisa e outra, como que a deixá-lo de lado, mas quase sempre ele voltava à baila; as fotos e os cartões postais ainda eram um mistério, pedindo para ser decifrado.


O mais importante assunto, porém, era o que planejavam enquanto abraçavam-se, antes de levantar para o desjejum; não tinham pressa; o sábado prometia ser de sol, mas não tinham sequer vontade de sair; o que mais os ansiava no momento era a possibilidade de fazer a primeira viagem juntos; ele entraria de férias no mês seguinte, ela poderia deixar o escritório sob a responsabilidade de Eunice até que retornasse de viagem; os principais projetos já estavam engatilhados e nada mais havia de importante na agenda; poderia dedicar o tempo inteiro para planejar todos os detalhes.

Pensaram em vários destinos, mas logo convergiram para uma viagem europeia; uma agência oferecia um giro de duas semanas pelas principais capitais, outra um passeio mais longo, mas de menor permanência em cada lugar; era uma decisão difícil, mas ambos queriam chegar a um plano de viagem que fosse muito bom para os dois;



Até que se lembraram dos cartões postais, que estavam com as fotos que tinham visto por último; por mais que tivessem praticamente um século de idade, poderiam ser uma interessante referência para saber por onde deveriam começar.

Resultado de imagem para early XXth century postcards collection over the table

Os dois arrumaram cuidadosamente a pilha de fotos e cartões; a maior parte era de passeios de família e os postais mostravam paisagens como Paris, Roma e Madri, mas uma foto chamou a atenção dos dois; era simples, mostrando uma casa que ela reconheceu como sendo do tipo vitoriano tardio, com mansardas no telhado e aspecto rebuscado; virou a foto e no verso estava escrito “Charlton House, Sussex, Aug, 12, 1911”; os dois entreolharam-se e não disseram nada e nem precisariam; podiam mesmo ler o pensamento do outro
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