domingo, 4 de outubro de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VELUDO VERMELHO - PARTE XIV


A proximidade dos dois era cada vez mais intensa.

Urgiam-se; as horas eram vividas como se nada mais pudesse existir passada a porta do apartamento dela ou dele; era como uma tempestade circunscrita naqueles metros quadrados, onde nenhum espaço era verdadeiramente suficiente.

Dividiam igualmente experiências de ambos os ambientes de trabalho; ele discorria os encontros de assessoria com empresários e autoridades, falava das coisas que tinha de engendrar no processo de construção de imagem e mesmo os pronunciamentos e discursos que tinha de escrever para aqueles nos quais, intimamente, sequer acreditava; ela dividia com ele as ideias e projetos que chegavam ao escritório; divertiam-se com as bizarrices que encontravam na jornada de trabalho e se admiravam das coisas interessantes que igualmente apareciam;

Mas sempre no meio de tudo o que discutiam a história das cartas e das fotos aparecia como que um lembrete de que aquele passado, que pouco a pouco se deixava descerrar, estava ali, ao alcance, como que a chamar para ser ainda mais deslindado; conversavam do assunto entre uma coisa e outra, como que a deixá-lo de lado, mas quase sempre ele voltava à baila; as fotos e os cartões postais ainda eram um mistério, pedindo para ser decifrado.


O mais importante assunto, porém, era o que planejavam enquanto abraçavam-se, antes de levantar para o desjejum; não tinham pressa; o sábado prometia ser de sol, mas não tinham sequer vontade de sair; o que mais os ansiava no momento era a possibilidade de fazer a primeira viagem juntos; ele entraria de férias no mês seguinte, ela poderia deixar o escritório sob a responsabilidade de Eunice até que retornasse de viagem; os principais projetos já estavam engatilhados e nada mais havia de importante na agenda; poderia dedicar o tempo inteiro para planejar todos os detalhes.

Pensaram em vários destinos, mas logo convergiram para uma viagem europeia; uma agência oferecia um giro de duas semanas pelas principais capitais, outra um passeio mais longo, mas de menor permanência em cada lugar; era uma decisão difícil, mas ambos queriam chegar a um plano de viagem que fosse muito bom para os dois;



Até que se lembraram dos cartões postais, que estavam com as fotos que tinham visto por último; por mais que tivessem praticamente um século de idade, poderiam ser uma interessante referência para saber por onde deveriam começar.

Resultado de imagem para early XXth century postcards collection over the table

Os dois arrumaram cuidadosamente a pilha de fotos e cartões; a maior parte era de passeios de família e os postais mostravam paisagens como Paris, Roma e Madri, mas uma foto chamou a atenção dos dois; era simples, mostrando uma casa que ela reconheceu como sendo do tipo vitoriano tardio, com mansardas no telhado e aspecto rebuscado; virou a foto e no verso estava escrito “Charlton House, Sussex, Aug, 12, 1911”; os dois entreolharam-se e não disseram nada e nem precisariam; podiam mesmo ler o pensamento do outro
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2 comentários:

  1. Demora pra sair a continuação? Vê se não judia, viu? A gente não merece...rs...<3

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A honra e o privilégio são meus...Muitíssimo Obrigado!!!