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quarta-feira, 4 de novembro de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VELUDO VERMELHO - PARTE XVII


CRUZANDO O ATLÂNTICO, 1877

Ele contemplava o mar como se a imensidão das águas fosse dar resposta às suas indagações.



Agnes e as crianças ainda dormiam na cabine; levantara mais cedo por não conseguir conciliar o sono com o tempo da viagem; mesmo sendo os dezesseis dias um tempo mais rápido do que se tivessem partido do Rio – vinte e oito dias era o tempo em média que os navios levavam do Rio de Janeiro a Liverpool – ele não conseguia pegar no sono; mesmo assim, a viagem transcorreu sem um transtorno sequer, com tempo bom e mares calmos.



LIVERPOOL, 1877

O frio entrava pelos ossos.

Era completamente diferente do clima de São Luís; ele se lembrava desse frio de outro tempo, nos campos e esteiros do Paraguai; parecia agora, porém, mais forte, apesar do casaco de lã e do chapéu de feltro.



Supervisionou a descarga da bagagem com cuidado, enquanto organizava o transporte até a estação; seria uma longa viagem até Charlton House, onde teriam de fazer contato com Horace Thurnbull, tesoureiro e testamenteiro de Mr. Charlton, para o conhecimento do inventário e a leitura do testamento.



A viagem de trem foi um reconfortante alívio; mesmo com a travessia oceânica sendo tranquila e sem incidentes, preferiam muito mais se sentir com terra firme sob os pés; os campos ingleses foram uma agradável surpresa para Júlio e uma confortável familiaridade para Agnes, que revia o lugar de sua infância; o verdejar que serpenteava pela janela do vagão alegrava sobremaneira as crianças.


A chegada a Sussex se deu por volta das dez da noite, a bagagem novamente descarregada e organizada em carruagens; no pátio de saída, os esperava um homem de meia-idade, suíças brancas emoldurando olhos cinza-azulados sem o menor resquício de brilho.

- Senhorita Charlton, eu presumo? – o homem se apresentou sem o menor traço de emoção, inclinando-se levemente – Sou Horace Thurnbull, guardião do inventário e do testamento de seu pai.

- É Senhora Meira agora, Sr. Thurnbull; este é o meu marido Júlio Meira, e estes são os meus filhos, Anna e Aurélio.

O homem pigarreou, como que a ignorar o constrangimento com a situação que se apresentava; limitou-se a dizer que os aposentos de Charlton House já estavam preparados para recebê-los; com gelada cortesia, sinalizou ao cocheiro que aproximasse a carruagem , onde então Agnes , Júlio e os filhos embarcaram, seguindo então para a casa; Thurnbull, então, embarcou num cabriolé e os seguiu.

Chegaram quase meia-noite; Agnes acomodara bem o pequeno Aurélio para que dormisse sem o incômodo dos solavancos; Anna, por sua vez, dormitava no colo do pai; a porta da carruagem foi aberta por um homem de porte altivo, magro, com um bigode meticulosamente arrumado; apresentou-se como Pritchard, o mordomo, que, tomando Agnes pela mão, ajudou-a a descer da carruagem; os dois lacaios que o acompanhavam se encarregaram da bagagem, levando-a para o interior da casa; Julio, carregando a filha, acompanhou a mulher, entrando na casa acompanhado do mordomo; lampiões foram acesos e, então, o Sr. Thurnbull despediu-se, avisando que viria por volta das duas da tarde, para a leitura do testamento.

A leitura do inventário e do testamento se fez conforme o esperado, com a listagem dos bens de Mr. Charlton, desde propriedades na França, uma villa nas proximidades de Florença, ações ao portador, além do controle acionário da firma do pai, Charlton & Co. tudo isso somado a uma renda anual de 150 mil libras.

Júlio observava impassível a leitura, pensando em como seria a vida daí por diante; uma coisa era ser escriturário, outra era ajudar Agnes a controlar e gerir tudo aquilo; guardou suas suposições para si, enquanto a voz tediosa e gutural de Horace Thurnbull continuava a listar os bens do falecido Sr. Charlton...

domingo, 4 de outubro de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VELUDO VERMELHO - PARTE XIV


A proximidade dos dois era cada vez mais intensa.

Urgiam-se; as horas eram vividas como se nada mais pudesse existir passada a porta do apartamento dela ou dele; era como uma tempestade circunscrita naqueles metros quadrados, onde nenhum espaço era verdadeiramente suficiente.

Dividiam igualmente experiências de ambos os ambientes de trabalho; ele discorria os encontros de assessoria com empresários e autoridades, falava das coisas que tinha de engendrar no processo de construção de imagem e mesmo os pronunciamentos e discursos que tinha de escrever para aqueles nos quais, intimamente, sequer acreditava; ela dividia com ele as ideias e projetos que chegavam ao escritório; divertiam-se com as bizarrices que encontravam na jornada de trabalho e se admiravam das coisas interessantes que igualmente apareciam;

Mas sempre no meio de tudo o que discutiam a história das cartas e das fotos aparecia como que um lembrete de que aquele passado, que pouco a pouco se deixava descerrar, estava ali, ao alcance, como que a chamar para ser ainda mais deslindado; conversavam do assunto entre uma coisa e outra, como que a deixá-lo de lado, mas quase sempre ele voltava à baila; as fotos e os cartões postais ainda eram um mistério, pedindo para ser decifrado.


O mais importante assunto, porém, era o que planejavam enquanto abraçavam-se, antes de levantar para o desjejum; não tinham pressa; o sábado prometia ser de sol, mas não tinham sequer vontade de sair; o que mais os ansiava no momento era a possibilidade de fazer a primeira viagem juntos; ele entraria de férias no mês seguinte, ela poderia deixar o escritório sob a responsabilidade de Eunice até que retornasse de viagem; os principais projetos já estavam engatilhados e nada mais havia de importante na agenda; poderia dedicar o tempo inteiro para planejar todos os detalhes.

Pensaram em vários destinos, mas logo convergiram para uma viagem europeia; uma agência oferecia um giro de duas semanas pelas principais capitais, outra um passeio mais longo, mas de menor permanência em cada lugar; era uma decisão difícil, mas ambos queriam chegar a um plano de viagem que fosse muito bom para os dois;



Até que se lembraram dos cartões postais, que estavam com as fotos que tinham visto por último; por mais que tivessem praticamente um século de idade, poderiam ser uma interessante referência para saber por onde deveriam começar.

Resultado de imagem para early XXth century postcards collection over the table

Os dois arrumaram cuidadosamente a pilha de fotos e cartões; a maior parte era de passeios de família e os postais mostravam paisagens como Paris, Roma e Madri, mas uma foto chamou a atenção dos dois; era simples, mostrando uma casa que ela reconheceu como sendo do tipo vitoriano tardio, com mansardas no telhado e aspecto rebuscado; virou a foto e no verso estava escrito “Charlton House, Sussex, Aug, 12, 1911”; os dois entreolharam-se e não disseram nada e nem precisariam; podiam mesmo ler o pensamento do outro
...

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VELUDO VERMELHO - PARTE XIII


SÃO LUÍS, 1871

O choro acordou o pai.

Abriu os olhos, a vista se habituando lentamente à chama do lampião; virou a cabeça e, de início, não reconheceu a figura ajoelhada ao lado dele; sinalizou para Vicência, que cutucou Júlio de leve; o filho ergueu o rosto e contemplou o pai, sem logo demonstrar reação; ainda tinha na memória a indiferença, a ausência das cartas enquanto esteve na guerra, a discordância pelo fato de ter se alistado.

Tudo isso se dissipou quando o pai, movendo o braço esquerdo – o direito continuava inerte, paralelo ao corpo – buscou o rosto do filho; Júlio inclinou-se mais para perto dele, que tentava reconhecer os traços do filho no rosto que tocava; Vicência aproximou mais o lampião e só nesse momento os olhos de pai e filho se reencontraram; não houve palavras; o velho tentava balbuciar algo, mas Júlio o acalmou; abraçou-o então e os dois choraram; não havia mais naquele momento razão para mágoa ou mesmo ressentimento; as lágrimas corriam dos olhos do pai e do filho, o abraço como se contassem um ao outro a falta que sentiram, a ausência de cartas ou conversas; de repente, ele sentiu que as forças do pai faltavam; o abraço foi afrouxando, até sentir que ele não se sustentava mais; sentiu a respiração esmorecer até que ouviu o último suspiro...pousou-o suavemente na cama e cerrou-lhe os olhos; dentro de si, algo pareceu se quebrar; tonteou e, se rendendo à dor, desfaleceu no chão da alcova; parecia ouvir a voz da irmã...

Os olhos de Amália foram a primeira coisa que viu ao despertar; ela estava a colocar-lhe um pano úmido na testa, para refrescá-lo. Agnes permanecia junto à porta do quarto, em silêncio; ajudara a irmã dele a colocá-lo na cama e agora, depois das circunstâncias da chegada, podia observá-lo melhor;

- Acordou então, meu irmão – disse ela sem ênfase – poderia abraçá-lo por retornar vivo, mas não sei se posso fazer isso agora, principalmente depois do que aconteceu.

- A dor é igualmente minha, irmã;  pensar que ele pode ter se agarrado à vida achando que não ia me ver voltar vivo.

- Ele jamais acreditou quando Lucio disse que podias ter morrido em batalha; que estavas desaparecido; ele sempre acreditou que voltarias.

- Sabe como são as coisas no exército, minha irmã; nem o correio eles conseguiam entregar direito; nem todas as tuas cartas eu recebi; tenho algumas nos meus alforjes, assim como cartas que escrevi e nunca consegui te enviar; mas e o Lucio, como ele está? Pensei que já estivessem casados.

- Depois que ele trouxe notícias suas ao nosso pai, ele teve de cumprir um turno em Buenos Aires como representante do almirante Tamandaré, mas na cidade grassava uma epidemia de cólera e ele morreu em uma semana; tive igualmente minha cota de dor; não posso dizer que eu o amava, mas ele era um homem bom e decente e eu tinha por ele grande afeição.

Procurou não prolongar muito aquela conversa com a irmã; a dor era algo que se ia dissipando lentamente, a seu tempo e jeito; pediu a ela sabão de barbear e uma navalha, pois iria se livrar da barba que deixara crescer durante a guerra; pediu à Vicência que queimasse o dólmã, a capa, os culotes e mesmo as ceroulas, pois nada queria que tivesse as marcas de morte e sangue; preservou apenas a medalha de bravura que recebera, hesitando em se desfazer dela; escanhoou-se devagar, usando a navalha com cuidado, procurando recuperar o hábito há muito abandonado; deixou apenas as suíças, na altura do meio do rosto; não era mais o jovem imberbe de antes; preferiu adotar essa aparência para se distanciar do passado e encarar o futuro com um novo olhar. Levantou-se, tomou um dos ternos que deixara quando se alistou e percebeu que emagrecera a tal ponto que seriam necessários reparos para ajustar as medidas a um molde completamente novo.

Depois de tomar o desjejum, ajeitou-se e tomou um tílburi até o Cemitério dos Passos, passando pelo mercado e comprando flores para colocar na sepultura do pai; dormira um dia e meio derrubado pela dor e pelo cansaço, não conseguindo ser desperto para o enterro do pai; “talvez tenha sido melhor assim”, pensou, enquanto o tílburi sacolejava levemente; chegou no momento em que um cortejo chegava com dois caixões para serem sepultados; reconheceu no meio das pessoas um velho colega de Liceu, Amaro Gonçalves, ar contrito, chapéu na mão e caminhando devagar ao lado dos ataúdes.

- Meus pêsames; oxalá tivéssemos melhor circunstância para nos encontrarmos – disse Júlio, enquanto apertava a mão do amigo.

- Não somos senhores delas, não é mesmo? – respondeu sem muito vigor Amaro – pessoas vêm e vão; uns logo, outros um pouco depois - Hoje estamos enterrando dois amigos nossos que sobreviveram à guerra, apenas pra morrer de doença aqui; ao menos não morreram longe dos seus; não sei o que seria morrer em terra estranha, não ter um enterro cristão.

Júlio então viu, encabeçando o cortejo, dois casais de meia idade, em passo compungido, interrompido por choro e soluços; pensou nos que viu morrer lá no Paraguai, sem terem nem como ser enterrados, apenas deixados pra que os elementos os consumissem.

Desviando do féretro, se dirigiu até a sepultura do pai, no jazigo da família; os zeladores ainda arrumavam as corbelhas que haviam sido deixadas no enterro, organizando-as cuidadosamente ao redor da entrada; girou a chave e entrou devagar, vendo as campas do pai, do avô e do bisavô, com as respectivas datas de nascimento e morte; meditou em silêncio por longos minutos até depositar as flores na campa onde jazia seu pai; no silêncio, parecia sentir a presença dele e lembrou-se de como morrera em seus braços; vira a morte em batalha, tantas vezes que virara fato banal no dia a dia de campanha, mas nada o preparara para a dor da perda do pai, especialmente sem poder ter tido a chance de pedir perdão...

Voltou para casa pelo fim da tarde, ainda imerso em pensamentos; indagava por que tantos morreram e ele sobrevivera, apenas para ver o pai morrer; era algo que o agoniava, que não o deixava em paz, parecia corroer lentamente a alma.

Agnes e Amália estavam 
lendo na sala quando ele chegou; pousou o chapéu de feltro mole no mancebo do vestíbulo e a bengala de castão de prata no suporte abaixo do espelho; só então sentou-se na cadeira de espaldar alto que pertencera ao pai, ainda pensativo; Vicência, pressurosa, serviu a ele um cálice de licor, o qual ele agradeceu polidamente, antes de sorver um leve gole.

Agnes e Amália repararam nele de maneiras diferentes; a irmã via a transformação do semblante dele, antes de uma radiância que contagiava e , agora, parecia ter se perdido; em seu lugar, apenas uma profunda tristeza; Agnes via igualmente essa transformação, mas algo nela fazia com que quisesse ir na direção dele, como que a querer aconchegá-lo; nos olhos opacos e sem vida, o querer de iluminá-los...


(continua...)

domingo, 20 de setembro de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VELUDO VERMELHO - PARTE XII


Eliza e Walter cuidadosamente arrumaram as cartas e as recolocaram no veludo; só depois notaram um outro pacote, amarrado com uma tira de couro macio; desamarraram-no e o conteúdo se revelou um novo amontoado, dessa vez de datas mais recentes, já do século XX; pareciam postais, junto de um grupo de cartões que, retirados, revelaram ser fotos de viagem, em diferentes lugares e situações; outro grupo revelou novas fotos, mas desta vez eram as de um jovem em uniforme militar que Walter reconheceu sendo da I Guerra, com o quepe e a bandoleira diagonal típicas da cavalaria da época; virando-a , pôde ler no verso, “Charlton Manor, Sussex, September 12, 1914, Lieutenant George Charlton Meira Crawford, Royal Yeomanry”. O jovem tinha olhar firme e o peito estufado demonstrava o orgulho com o qual a foto foi tirada. Outra foto o mostrava montado, com todo o equipamento, como que aguardando ordens; a legenda atrás dizia: “Bois de Quevrecháin, October, 22, 1914.


Entreolharam-se de forma cúmplice enquanto arrumavam tudo, deixando o pacote em cima da mesinha pequena ao lado da espreguiçadeira; o dia se revelara uma surpresa, mais uma entre tantas descobertas cada vez que se abria algo relacionado às coisas do pai dela;

Ela tirou um pendrive de uma gaveta e inseriu no aparelho de som; os acordes de “Rhapsody in Blue” de Gershwin preencheram a sala, enquanto os dois sentavam no sofá; recostaram-se um no outro, abraçados em silêncio enquanto a música enchia a sala; lá fora, o burburinho dos carros no trânsito noturno.


No dia seguinte, despediram-se na intensidade que os dois viviam cada vez mais plenamente; ela se surpreendia com a descoberta de sensibilidades que não imaginava possuir; ele se encantava com a maneira que o querer dos dois combinava; amaram-se mais uma vez antes de cada um seguir seu caminho, não sem antes combinar de se encontrarem logo depois do expediente; o olhar dela ansiava que ele ficasse; o olhar dele era a luta entre a vontade e a responsabilidade...

O dia no escritório foi de muito movimento; havia um recado da Secretaria de Obras da Prefeitura, sobre um workshop de Patrimônio com delegados da UNESCO; Eunice passava a agenda do dia enquanto ela revisava documentos sobre projetos propostos, assinalando os que tinham prioridade dos que não valiam nem uma passada de olhos; respirou fundo enquanto pensava nas pessoas que ainda tinham a visão leiga de que “arquitetos podiam fazer milagres”.

Ainda pensava em tudo que acontecera; o leve recordar de tudo arrepiou a espinha; parecia ainda sentir os toques, os beijos, o afago, a explosão e o arrefecer enlaçados; procurou voltar o foco para a agenda; Eunice notou algo diferente nos olhos da chefe, algo rápido, mas que a fez perder o prumo, recobrou-se igualmente e continuaram a organizar os compromissos do dia e da semana; depois de tudo arrumado, saiu para organizar as reuniões do dia e os relatórios de projetos; ao fechar a porta, lembrou-se da expressão nos olhos da chefe, poucos segundos que pareceram , para a jovem, significar muito; era por demais conhecedora das emoções, as vivia intensa e livremente e reconheceu aquele olhar mais que qualquer coisa.

Tinha certeza de que a chefe se apaixonara...

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VELUDO VERMELHO - PARTE X


Walter examinou cuidadosamente o conteúdo do baú, as mãos percorrendo cada objeto como se fossem joias; tentava decifrar a mensagem implícita neles, sentindo a energia que parecia emanar de cada um; Eliza, à distância, contemplava-o com um misto de admiração e curiosidade; quando terminou de ver tudo, segurava a foto do pai dela junto com o idoso Antônio Ribeira, na cama da enfermaria do asilo.
- Então é isso – respirou fundo – o seu pai juntou todas essas coisas como uma forma de contar a história das pessoas que viveram isso, mas não conseguiu;
- Sim, foi desse jeito; ele me deixou com essa tarefa nas mãos – respondeu calmamente – até tentei continuar e segui algumas pistas, mas ainda penso que estou indo muito devagar – completou enquanto o abraçava.
- As coisas às vezes são assim, pensamos que podemos estar no caminho certo e de repente nos enganamos; mas sempre é tempo de voltar de onde erramos e fazer tudo certo.

O olhar dele se voltou para os maços de cartas dentro do veludo; todos tinham sido desatados exceto um, ainda com o laço de fita; mas, diferente dos que tinham sido desatados antes, este era atado com um laço de fita preta e as cartas, que nos outros maços estavam sem nenhum tipo de dano salvo os do tempo, estavam em parte rasgadas ou com manchas que pareciam chamuscos; olhando mais de perto viu que não eram chamuscos e, sim, manchas de um tom marrom escuro; em algumas a caligrafia era firme , em outras vacilante; pareciam ser da mesma pessoa , mas em momentos diferentes, como se não tivesse forças pra escrever; Walter desatou o laço, espalhou as cartas pela mesa e começou a ler...

“MONTEVIDÈO, 12 de fevereiro de 1866

Caros Pai e irmã

A urgência me fez escrever uma carta para os dois; os preparativos para a movimentação das tropas urgem, pois não teremos muito tempo até embarcar; aproveito e escrevo estas linhas de inopino, para saberem como as coisas andam e como estou indo.
Meu pai, sei que o senhor questiona minha atitude, mas pensei muito antes de me decidir; me senti no dever cívico de me alistar, pois não fomos nós que agredimos o Paraguai, mas ele nos agrediu; há relatos de muitas atrocidades na província de Mato Grosso e no Rio Grande do Sul; aqui os soldados andam uns nervosos , uns excitados, mas todos muito dispostos para lutar; comissionaram-me como tenente de um batalhão de voluntários, recrutados entre a vizinhança da faculdade de Direito e mesmo alguns segundanistas; muitos chegaram sem nem saber como segurar um rifle; tento da melhor maneira possível fazer com que fiquem treinados e azeitados para a frente de batalha.
Minha irmã, fiquei feliz com o seu noivado com o Lucio Faria; encontrei-o uma vez na Corte, recém comissionado para o Arsenal de Marinha; ele me parece muito entusiasmado, mas, pelo que eu me lembro, não ficaste tão empolgada quando o conheceste; recordo da tua frase que dizia que ele ‘nem tinha te feito arfar’, mas deves tê-lo conhecido melhor para te decidires.
Bom, tenho que interromper a missiva agora, pois sou chamado no posto de comando; espero ter melhor oportunidade para escrever mais longamente; a tropa já se prepara para partir; espero que essa carta encontre os dois em boa paz e que todos estejam bem.

Sem muito para dizer
Pedindo sua bênção, Meu Pai
E todo o carinho para ti, Minha Irmã
Do filho e irmão
Júlio”



Eliza e Walter examinaram com cuidado cada uma das cartas do último maço; algumas, de tão chamuscadas, não puderam ser lidas, pois se desmancharam ao toque; outras, porém, puderam ser manuseadas e finalmente puderam ser abertas; a ansiedade tomava conta dos dois, mas abriram uma de cada vez, para tentar preservar as que ainda podiam ser lidas.

“POSTO AVANÇADO DE CURUPAITI, 11 de outubro de 1867

Cara irmã

Espero que consigas receber esta carta antes de qualquer outra coisa; imagino que sempre deves ir ver se meu nome está na lista de mortos que, penso, devem estar afixando na porta do Jeremias tabelião; se meu nome não está lá, então não deixe de acreditar que eu voltarei;
Cheguei no dia em que aconteceu o desastre; só o que se via eram mortos amontoados e feridos agonizantes; um de meus colegas oficiais sofreu um colapso nervoso e não diz mais coisa com coisa; o resto da tropa está num estado tal que muitos podem nem sequer lutar, preferindo fugir a sequer vislumbrar o inimigo...
Uma novidade: lembra-se do Antônio Ribeira, que tinha levado uma encomenda minha a São Luís? Pois é, eu o encontrei aqui, alistado no regimento de caçadores como capitão; conversamos rapidamente, pois ele já estava engajado em combate com colunas móveis paraguaias perto de Humaitá; ainda aguardo ordens para seguir em frente, mas acredito que logo seguirei com os outros; reze por mim irmã, e diga ao meu pai que entenderei se ele não me responder.




Não sei se conseguirei enviar outra missiva tão logo; o correio aqui é um tanto irregular, mas farei o possível para mandar notícias assim que puder; diga a meu pai que peço a bênção dele.

Pedindo seu amor e suas preces
Seu Amantíssimo irmão
Júlio”

Walter separou outro grupo de cartas do maço; pareciam, dessa vez, desordenadas, como se arrumadas às pressas, num aparente estado de confusão; pegou-as com cuidado, desdobrando cuidadosamente, retomando então a leitura, com Eliza ao lado, atenta a tudo.

“HOSPITAL MILITAR DE CORRIENTES, 04 de novembro de 1867

Cara Irmã

Se lês estas linhas agora, é porque o cabo Terêncio segurou o meu braço para que eu pudesse escrever; desculpe minha letra sem alinhamento, mas é que não tenho muito jeito agora para segurar direito a pena; ainda não me recuperei bem dos ferimentos que recebi, mas posso asseverar que logo estarei longe disso e de pé de novo. O progresso das tropas é lento e difícil, pois não existem mapas precisos da região e somos presas fáceis de emboscadas e escaramuças; o Coronel Pena, comandante do regimento, tombou há dois dias, vitima de um riflero paraguaio; teimou em acender o cachimbo numa avançada à noite e não viveu para dar o primeiro pito; caiu com o fósforo ainda na mão...
Imagino que tenhas tentado escrever, mas não recebi tua carta; o cabo Terêncio diz que os estafetas têm sido atacados por piquetes paraguaios em busca de despachos dos comandos, mas mesmo assim esperarei por ela; sinto falta de notícias tuas e de nosso pai, mas acho que ele ainda não me perdoou por ter me alistado, mas as coisas são assim; apenas o tempo pode fazer algo; não sei ainda quando retornarei à frente de batalha, mas espero sair logo da convalescença; tentarei por qualquer meio te enviar esta, assim que for possível;

Pedindo seu carinho de irmã e suas preces
Seu amoroso irmão que te beija nas faces
Júlio”




Já era tarde quando Eliza e Walter se aperceberam do tempo; arrumaram as cartas em uma mesinha perto do baú e foram à cozinha preparar o jantar; teriam ainda um tempo juntos até que ele fosse embora, pois no dia seguinte o trabalho aguardava; desta vez, ele se encarregou do jantar; ela observava, da mesa da cozinha, o desdobrar de uma refeição preparada calma e apaixonadamente; aproximou-se e o abraçou por trás; os braços dela o enlaçaram e ele respirou fundo, enquanto dava os toques finais no prato...

domingo, 23 de agosto de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VELUDO VERMELHO - PARTE VIII



A vibração do celular a acordou num estalo.

Tentou segurá-lo nas mãos, mas ele parecia escapar; deslizou até o canto da cama,mas a ligação já tinha caído na caixa postal; ao verificar, viu que era de Eunice, deixando um recado sobre a reunião de conciliação de contas na segunda-feira; regurgitando a frustração, jogou o celular no recamier e despiu-se, indo para o chuveiro.

Deixou a água cair por cinco longos minutos, sentindo o deslizar pelo corpo; respirou fundo, e, de repente, sentiu-se como aquecer em ondas, um calor que não vinha da água, que parecia conduzi-la a algo que, para ela, parecia perdido, longínquo, apenas como uma lembrança; de início, tentou resistir, mas aquilo era mais forte que ela; rendeu-se e se deixou levar, até que, num átimo, viu-se mais intensa do que jamais fora na vida...

Enxugou-se e vestiu o robe sem pressa; olhando pela janela, viu que o sábado prometia ser nublado, sem muita promessa de melhorar; preparou o desjejum como de hábito, comendo sem muito prestar atenção, até que os acordes de Rhapsody in Blue – o toque que era a marca registrada dela – foram ouvidos de novo; lembrou-se do celular no quarto, chegando antes da chamada cair na caixa postal, só depois notando que a torrada ainda estava em sua mão; atendeu e reconheceu a voz de Walter, que se desculpava por não ter podido atender as ligações, pois estava resolvendo detalhes do apartamento que alugara. Combinaram de se encontrar num restaurante próximo do apartamento dela, onde finalmente conversariam...

Eram emoções desconhecidas para ela.

Jamais tivera interesse ou sequer atração por ninguém , mesmo em seu tempo de estudante; Lisandro, advogado e executor do testamento de seu pai, jamais escondeu a dedicação que sentia por ela, mas jamais tinha dado a ele esperança sequer; sempre fugiu de qualquer tipo de envolvimento, brigando inclusive com a terapeuta, que dizia que ela devia tentar algum relacionamento para “drenar energias”. Agora, ria consigo mesmo de tais lembranças...

Pela primeira vez vestiu-se com ansiedade; escolheu pantalonas de linho bege e uma blusa solta, que caiu confortavelmente; arrumou os cabelos com apuro e viu o tempo; ainda nublado, mas parecia que não iria chover tão cedo; saiu da garagem rápido, surpreendendo o porteiro; chegou ao restaurante primeiro, escolhendo uma mesa de onde podia ver todo o movimento de entrada. Ele chegou cinco minutos depois e não precisou de muito para localizá-la; acenou levemente e se dirigiu a ela num passo contido, como se quisesse decorar cada momento da aproximação; trocaram um aperto de mão tímido, como se estivessem se conhecendo naquele momento.



- Fiquei feliz por você ter vindo – disse ele, meio sem jeito – mais uma vez me desculpe por não ter atendido suas ligações; estava no meio da montagem do apartamento e não ouvi o telefone tocar.

- Não tem problema, pudemos nos falar depois e aqui estamos; estou igualmente feliz por vê-lo de novo.

Conversaram, em um primeiro momento, de amenidades, ele falando da nova empresa em que estava trabalhando , uma agência de publicidade, do apartamento que acabara de se mudar e de alguns hobbies; ela sentia que ele precisava estar mais confortável para começar a falar o que realmente queria; deu a ele o espaço necessário para que ele se sentisse à vontade.

Então, sentindo-se mais confiante, finalmente abriu-se, não numa torrente de palavras, mas num falar pausado, como se quisesse que nada ficasse perdido ou mal-entendido para ela

- Entenda, eu não poderia ficar como estava e onde estava, especialmente por causa do que se passou comigo; não poderia ficar lá porque...

O silêncio dele foi como se nada existisse ali, apenas os dois; ele pigarreou, folgou um pouco o colarinho e continuo no mesmo falar pausado

- Porque eu não poderia ficar sentindo o que eu sentia, e ainda sinto, por você; é mais forte que eu e é algo novo para mim; sempre fui profissional mais que pessoa, e isso me fez recuar e pedir demissão. Achei que jamais poderia falar o que falo agora, por isso tomei coragem e deixei a mensagem no envelope de minha carta de demissão.

Ele segurou a mão dela, apertando-a levemente; ela o encarou e sorriu sem falar nada, mas, por dentro, sentia que tinham mais em comum do que podiam imaginar; ele, igualmente , sempre pusera a carreira e a profissão acima de tudo, negando-se a viver seu lado pessoal em função do trabalho.

Almoçaram como se o tempo não passasse; cada olhar era como se fosse a mais animada das conversas, uma descoberta de sensibilidades que ambos se perguntavam por que não tinha sido descoberta antes. Depois que terminaram, dirigiram-se ao valet para pegar os carros, mas ela, como se não quisesse se despedir, disse: “vamos conversar mais, acho que temos muito ainda por falar”. Ele, tomado de surpresa, apenas assentiu com a cabeça, seguindo-a. Chegando ao prédio dela, esperou enquanto ela entrava na garagem, ficando no estacionamento dos visitantes, a aguardar a liberação da entrada pelo porteiro; este o observou por alguns minutos, até que o interfone tocou e a fechadura do portão deu um estalido seco, avisando-o de que podia entrar.

O elevador parecia subir mais devagar do que aparentava. Ele procurou disfarçar a ansiedade tamborilando os dedos na parede, imaginando que julgamento ela poderia estar fazendo dele; chegou mesmo a pensar que seria como um joguete, apenas diversão, mero passatempo. Dissipou tais pensamentos quando o elevador enfim chegou no andar; ela esperava com a porta aberta, convidando-o a entrar; perguntou se queria alguma coisa, alguma bebida; ele aceitou água, pois ficou com receio do que o álcool pudesse causar, especialmente naquele momento.

Conversaram mais um pouco, ele observando discretamente cada detalhe do apartamento, a mistura de decoração antiga e nova, recantos que pareciam ter vida própria; reparou na estante perto da sacada, os objetos parecendo que há tempos não eram arrumados.

- Aquele recanto era do meu pai – disse ela, como se adivinhasse os pensamentos – moramos juntos até a morte dele. Até então eu era como você, apenas o meu trabalho valia; ele mesmo me dizia que a vida não era apenas dever, mas prazer; não o levei muito a sério, como você pode ver.

- Também fui assim – respondeu ele na mesma fala suave – fui criado por duas tias solteironas que me diziam que a vida não era apenas a cara nos livros e trabalho, a vida tinha de ter arte.

Segurou a mão dela novamente, dessa vez com um pouco mais de firmeza; ela sentiu a energia do toque, o calor do aperto; deixou-se conduzir, enquanto ele a fitava com um fulgor nos olhos que não precisava ser traduzido; lentamente, a mão dela trouxe o rosto dele mais perto e os lábios se colaram devagar, mas não havia mais o que represar; a torrente dos dois rompeu as últimas reservas e não mais a razão, mas a pura vontade os guiava, os lábios como a querer devorar os anos de ausência, de solidão, de todas as coisas intensas há tanto tempo esquecidas...

(Continua)

Créditos das imagens : Google Images

segunda-feira, 27 de julho de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VELUDO VERMELHO - PARTE IV


Eliza pousou as cartas na cama cuidadosamente; não queria que elas de desfizessem por serem mal manuseadas; mas a leitura deu mais uma pista de Antônio Ribeira que começou a intrigá-la; mas queria dedicar-se a essas divagações com calma; precisava contatar a equipe e mais do que nunca inteirar-se do que se passava no escritório. 



Chegou como de costume, recebendo a agenda do dia das mãos de Eunice, a prestativa secretária; tinha duas reuniões, uma às 14 horas e outra às 17; antes disso passou a vista no briefing geral de atividades e chamou a equipe para uma conversa informal sobre os projetos em andamento; todos estavam lá, curiosos para saber do projeto em Belém; ela respondeu laconicamente, dizendo apenas que “o negócio não foi em frente”; foi quando notou, sentado ao lado de Marcela, a estagiária, um rosto novo: cabelos grisalhos curtos, olhos negros, óculos de aro dourado encimados por sobrancelhas retas; segurava a caneta displicentemente na mão direita, tamborilando levemente.
- Eliza, esse é Walter, nosso novo relações públicas, você o tinha aprovado há alguns meses atrás – apresentou-o Marcela – você tinha dito que a entrevista não era necessária porque você confiava no currículo dele.
- Eu lembro bem; muito obrigado, Marcela. Seja então bem-vindo, Walter; espero que tenha sucesso em seu trabalho; mas vamos pôr as coisas em dia, não? – disse, num sorriso.

Walter assentiu com a cabeça e juntou-se à conversa.

Ela estava satisfeita com os resultados do grupo. Na ausência dela vários bons negócios tinham sido fechados, o que era muito positivo e consolidava ainda mais a imagem do escritório como um dos mais bem-cotados do mercado; vária s vezes foi sondada para adquirir capital acionário, mas polidamente declinara, preferindo investimentos mais sólidos e menos arriscados.

Saiu do escritório por volta das oito e meia da noite; jantou no lugar de costume, com o garçom levando -a para a mesa favorita, no canto do restaurante onde ela pudesse ver o movimento de vai e vem dos clientes; sentir o movimento dos lugares a relaxava, antes de voltar para casa. Demorou-se um pouco mais, saboreando lentamente a torta de trufas que tinha vindo de sobremesa; levantou os olhos para ver o movimento e deu de cara com o novo relações públicas, que entrara devagar e escolhera uma das mesas perto da porta. Notou a economia de gestos ao chamar o garçom e fazer o pedido, ao mesmo tempo que, ao notar a presença dela, acenou; Eliza respondeu ao aceno ao mesmo tempo em que pedia a conta; tinha pressa em chegar em casa e ler o restante das cartas que ainda repousavam na cama; acenou novamente ao passar pela mesa onde Walter estava, chamando o manobrista para trazer o carro; uma vez nele, saiu devagar e tomou o caminho de volta para casa.


Os sapatos já estavam nas mãos dela quando girou a fechadura, entrou em casa, deixou o blazer sobre o sofá e sentou para relaxar; respirou fundo e deixou-se levar pelo conforto, espreguiçando-se devagar e deixando os pensamentos a conduzirem; de repente, se viu relembrando o momento em que Walter entrara no restaurante, os gestos contidos, o modo espontâneo de acenar; surpreendeu-se ao sentir aquilo, pois já há muito deixara de buscar atratividade em qualquer pessoa; quis conter os pensamentos, mas algo dentro dela fez com que deixasse o pensamento fluir...

Mas logo os olhos dela se voltaram para o quarto e para as cartas espalhadas na cama; deixou esse novo pensamento, ao menos por enquanto, de lado, e voltou a tenção pra elas; não as leria agora, elas esperariam mais um dia...

Buscou o sono, mas ele demorou a vir...

( Continua...)


domingo, 19 de julho de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VELUDO VERMELHO - PARTE III



SÃO LUÍS, PROVÍNCIA DO MARANHÃO, 22 de Maio de 1858

"Meu Irmão

Deito estas linhas por razão de falar-te apenas do ameno, sem razão especial; espero que esta não te encontre em contratempos nem em outra qualquer tribulação; sei que teus estudos são prioridade e que os reclamos e amuos de tua irmã podem não ser considerados, mas te escrevo mesmo assim, pois somente em ti posso confiar, mesmo distante de mim.

A cidade ainda está debaixo de chuva torrencial; parece que os céus estão desabando!! Sei que já devia estar acostumada ao aguaceiro desse tempo, mas não consigo; as águas sempre me pegam de inopino, me dando susto atrás de susto; ao contrário de todos, a canícula me conforta, o sol forte me dá um alento que aos outros não chega.

Aqui não há muitas novas; apenas o Manduca Zacarias, com quem ficaste de cizânia por causa dos olhares de Marília, cansou-se dela e agora me faz a corte; imagine que os galanteios dele se limitam a dizer-me quão segura será minha vida se der a ele a honra de esposá-lo; diz ele que basta que eu peça que todas as portas se abrem, que todos os meus desejos serão atendidos, pois logo ele sucederá o pai como chefe da Casa Aviadora e uma carreira de vereador se abre para ele; Imagine! Nem uma palavra cortês, nenhum poema inspirado! Apenas uma verborragia de cifras e vantagens! Escuto-o apenas para distrair-me, pois ninguém conseguiu ainda tocar-me o coração, quanto mais esse declamador de números!

Nosso pai está em viagem, desta vez resolvendo pendências na vila de Barra do Corda, devendo voltar em mais cinco dias; na ausência dele, eu tenho de dar conta dos recados e mensagens e todos os cantos, anotar tudo e organizar a caderneta de assentos, mantendo-a em ordem até que chegue;

Te desejando sorte e bons estudos
Deus te guarde
Beijo-te amorosamente nas faces
Tua Irmã
Amália"



RECIFE, PROVÍNCIA DE PERNAMBUCO, 01 de junho de 1858

"Cara Irmã

Desculpe não te deitar linhas tão logo, mas os estudos aqui me consomem por demais e o tempo me é mais verdugo que amigo; eu fico triste por não poder escrever no tempo que gostaria, mas somente agora posso fazê-lo, já te pedindo mil perdões por te escrever com tanta pressa assim, mas te prometo uma carta com mais assunto da próxima vez;

Poderia bem dizer que o Manduca Zacarias merece a sova de cadeira que dás nele, mas, se me permites um conselho, deixe ele em paz; não mereces um sujeito que não te inspira, nem mesmo penas; tenho certeza de que alguém fará teu coração saltar; no momento não tenho tempo pra tais veleidades; os estudos são a única amante que tenho e tão cedo não sei se meu coração desperta...

Diga ao nosso pai que escreverei com mais presteza daqui a mais ou menos cinco dias; não tenho igualmente muito a contar, mas logo darei mais notícias

Beijo do teu Irmão

Júlio"



RECIFE, PROVÍNCIA DE PERNAMBUCO, 19 de Junho de 1858

"Caro Pai,

Espero que estas linhas o encontrem em paz e harmonia e que seus negócios em Barra do Corda tenho sido resolvidos a contento; aqui me divido entre os estudos e o observar da agitação politica na cidade, com os abolicionistas e republicanos gritando cada vez mais alto, e começando a incomodar o governo da província; colegas de curso inauguraram um clube abolicionista e queriam que eu me filiasse mas declinei, dizendo que não tinha estômago pra tais patuscadas; melhor seguir seu conselho e continuar meu caminho, mas é difícil ficar sem tomar partido por alguma coisa.

Pela primeira vez tenho um grande amigo por aqui; trata-se de Antônio Ribeira, vindo da província do Pará; de conversa boa e humor muito melhor, tenho-o ajudado a se adaptar às coisas aqui do Recife, mas vejo que não terei muita dificuldade, pois o mesmo não teve empecilhos em já aviar-se em tudo, dando conta bem rápido das coisas; pelo menos posso conversar sem ser troçado pelos outros por causa da minha neutralidade em relação aos republicanos e abolicionistas.

As notícias mais recentes que recebi vieram de Nestinho Menezes, cujo pai dirige um escritório comercial na capital da Provincia de São Pedro do rio Grande do Sul e possui estâncias de cria de gado e ovelhas na fronteira; as coisas não serenaram por lá depois de se guerrear uruguaios e argentinos; ele diz que continuam os ataques e roubos e que o exército imperial não tem nem efetivo nem moral pra lutar, a despeito do comandante de fronteira, general Osório, ser homem de escol e de grande coragem pessoal; a saída foi armar os peões e dar ordem de atirar sem misericórdia em qualquer um sem intenção declarada; assim estão as coisas nesse nosso país.

Espero que tudo esteja melhor por aí
Amor e Respeito
Sua Bênção
Seu filho
Júlio"


SÃO LUIS, PROVÍNCIA DO MARANHÃO, 27 de Junho de 1858

"Caro Filho

O litígio em Barra do Corda se resolveu bem, sem mais contingências ; é como sempre digo: uma conversa civilizada sempre leva as coisas a bom termo e sem consequência séria para nenhum dos lados; assim se constroem a civilidade e os bons costumes.

As coisas não andam bem aqui em São Luis; as eleições estão para breve, mas a violência e a intimidação de eleitores continuam sem freio e sem uma autoridade competente, pois os juízes estão todos nas mãos do Coronel Izidoro Jansen Pereira, comprados pela mãe dele, essa sim a dona do dinheiro e do poder; acreditas que um sobrinho dela veio até mim para dizer que o meu apoio seria um grande incentivo à minha carreira, possivelmente com uma nomeação de magistrado? Respondi-lhe polidamente que iria levar muito a sério e daria em tempo certo a minha decisão; pense no descaramento! Principalmente depois que o adversário político do Coronel, o grande Candido Mendes, foi atacado na saída do Teatro União, após a apresentação de um drama lírico de nosso amigo Gonçalves Dias, e brutalmente espancado até quase morrer? Não se fala em outra coisa na cidade. De resto, todos estão bem; sua irmã manda recomendações e beijos e está preocupada com você; eu, de minha parte, só posso te desejar sucesso e perseverança nos estudos e que tenhas bom juízo na condução dos mesmos evitando aventuras sem sentido e pandegarias.

Sem mais novas e te desejando sucesso e felicidades
Abraço Paternal e recomendações
Do Teu Pai
Aurélio"


(Continua...)

domingo, 12 de julho de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VELUDO VERMELHO - PARTE II


SÃO LUIS, MARANHÃO, 12 Fevereiro de 1858

“Caro Irmão

Mal me contive com as novas; então foste aprovado nos exames para a Faculdade de Direito! Nosso pai vai ficar muito satisfeito quando ler a missiva que mandaste; ele ainda está no interior, resolvendo um litigio em Caxias; lembras do Martim Pescada? Pois é, ele se meteu em encrenca por causa daquela rixa com o Jonas Louzeiro e ao que parece tudo não terminou em coisa pior por causa da firmeza do nosso pai. Tomei a liberdade de responder antes mesmo de contar a ele.

Aqui as coisas vão no de sempre; lembras da Carmen, a filha do deputado Sobreira? Ela casou com o Davi Moura, teu colega no Liceu e vai de mudas para a Corte; ele é oficial de Marinha e vai assumir posto no ministério; conversei com ela uns dias atrás e ela está mais do que animada; é sempre bom quando as coisas andam do jeito que queremos, não é? Quem sempre anda a perguntar por ti é a Marília, filha do Comendador Almeida; ela veio me dizer que ficou com o coração partido ao ter-te decidido ir ao Recife para te preparares para a faculdade; irmão, que prometeste a ela? Espero que ela não tenha sido mais uma a cair na tua conversa de maganão.

Assim mesmo, fiquei contente com teu sucesso; vais longe, nosso pai sempre disse isso; espero igualmente que a faculdade e a tomada de rumo te tirem da cabeças as idéias malucas de república e abolição que andaste alardeando por aqui; deixe isso por aí e tome emenda! Deixe os malucos e os poetas darem caso disso.

Não tenho muito mais para falar, o dia está cinza e uma chuva vem por logo; espero de coração que os estudos te transformem num homem, e te livrem desses devaneios malucos; te dediques com afinco às tuas responsabilidades e vais conseguir tudo o que queres.

Sinceramente
Beijo-te a face
Tua irmã
Amália"



SÃO LUÍS, MARANHÃO, 16 de Março de 1858

“Júlio, Meu Filho

Não imaginas quão contente e orgulhoso fiquei ao saber das novas de tua aprovação! Tua irmã veio me contar assim que cheguei, mas o estafeta já tinha me entregue a tua carta e já começara um pouco a ler quando Amália me falou do assunto. Folgo em saber que já estás dando um rumo à tua vida; confesso que fiquei preocupado com as tuas diatribes há algum tempo; tua mãe – que Deus a tenha – ficaria aflita em saber que te envolveste com a sorte de lunáticos que apregoa aquelas ideias absurdas. Agora uma nova responsabilidade te espera, e rezo a Deus que saibas te desincumbir dela com galhardia e orgulhe nossa família.

As coisas aqui andam agitadas; a campanha está cada vez mais acirrada e mesmo violenta; os capoeiristas do coronel Izidoro, filho de Donana Jansen, ameaçam eleitores e impõem um terror que nunca tinha visto na província; o presidente, de mãos atadas, nada faz; viemos um caos sem precedente aqui; a disputa política tem mesmo separado famílias e amigos veem uns aos outros pelas costas; com dinheiro à larga, o coronel Izidoro praticamente manda na província.

Mas não escrevi para lamuriar nem para dizer-te coisas tristes; ao contrário, cheio de orgulho, estas linhas são para exortar-te a não te desviares de teu caminho por nada, nem mesmo por devaneios que podes achar certos, mas que, na verdade só levam a perder-te; cumpre teu caminho nos estudos e verás que podes ir muito longe.

Tua irmã manda igualmente lembranças e esperamos a tua vinda no recesso, para pormos a conversa em dia; lembra-te bem deste conselho: conquiste sempre todas as metas, mesmo que elas te pareçam titânicas; só assim saberás o valor do que tens nas mãos.

Que Deus te Abençoe

Abraço Afetuoso

Do teu Pai

Aurélio”



RECIFE, PERNAMBUCO, 24 de Abril de 1858

"Caros Pai e Irmã

Escrevo estas linhas para aquietar o coração de vocês dois, para que não fiquem mais atribulados a respeito de minha situação aqui; em verdade, estou descobrindo sempre mais razões para desenvolver meus estudos com cada vez mais afinco, como sei que gostariam que eu fizesse; assim, eu vos peço que não se apoquentem, pois meu escopo é exatamente me tornar um bom advogado e pelejar pelos ideais que realmente valem a pena; sei que posso ter decepcionado a vocês com meus arroubos de radicalismo, mas peço aos dois que não se enervem com isso.

A vida em Recife é completamente diferente da de São Luis; aqui há um movimento muito grande de pessoas, tanto brasileiras quanto estrangeiras, pois o porto é um importante ponto de concentração de várias nacionalidades, o que contribui para transformar essa parte da cidade numa verdadeira Babel; fiz amizade com um dos assistentes de Mr. Hobart, representante comercial, cujo escritório dista poucas casas de onde moro; um rapaz chamado Philip, inglês de há pouco chegado; fizemos uma troca; ele me ensinaria inglês e eu o ensinaria português, e, embora esforçado, ele ainda sente muitas dificuldades enquanto eu, pelo menos no que ele disse, estou fazendo alguns progressos.

Posso imaginar como andam as coisas por aí, meu pai; aqui em Recife as coisas andam igualmente agitadas, mas com o coro dos republicanos, mesmo ainda em pequena monta, mas começam a incomodar o governo provincial, e mesmo dentro da faculdade já há uma pequena célula; sei que esposei tais ideias há tempos, mas acredito que se houverem mudanças, elas serão resultado de uma maioria, não de grupelhos interessados somente em se beneficiar de benesses e privilégios.

Irmã, diga a Marilia que não sei por que ela se diz de coração partido; eu é que deveria ficar, ao saber dela trocando olhares com o Manduca Zacarias na saída da missa no Carmo; ela, sim, é que se dividiu entre mim e ele; mas deixe, tenho coisas muito mais importantes para me preocupar no momento; tenho feito progressos na faculdade, mas não é fácil como imaginei; quase me esfolo vivo pra acompanhar todas as matérias, especialmente a que diz respeito aos estatutos da constituição e o mais recente Código Comercial; sorte não ter de me especializar nisto; meu escopo é o de ingressar nos procuradores da Coroa, uma carreira de grandes possibilidades; por isso tenho de exceder a expectativa e ter as melhores notas.

Sem muito pra falar mais, me despeço aqui, esperando que esta chegue em paz e bem a vocês; envio o meu amor e os meus respeitos

Um abraço apertado do irmão e do filho

Júlio”

domingo, 5 de julho de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VELUDO VERMELHO



Eliza chegou em casa em uma madrugada chuvosa.

Perdera a conexão em Brasília, tendo sido obrigada a ficar na capital federal mais tempo do que esperava; por sorte, já quase meia-noite conseguiu um encaixe de voos que a fez chegar no Aeroporto Internacional do Galeão por volta das três da manhã.



Não resistiu ao cansaço; largou as malas na sala e mal teve tempo de tirar a roupa, mergulhando nua na cama, e assim ficou até as nove da manhã.

Acordou com o som da vibração do celular antes do toque; atendeu e era Lisandro, querendo saber notícias dela; atendeu um tanto contrafeita, mas tinha prometido dar notícias assim que estivesse mais a par das coisas que o pai a incumbira; marcaram um almoço para daí a dois dias; teria tempo, então, de ver a caixa que Albertina tinha confiado a ela.

Tomou um banho demorado, deixando a água cair como massagem, recuperando cada parte de si do cansaço da viagem. O calor da água a revigorava, fazia-a se sentir renovada, com energia pra novos projetos, novas perspectivas, levantava-a para a vida.

Verificou o e-mail, respondendo o que podia em prioridade e deixou algumas coisas para depois; avisara que só iria reencontrar a equipe em quatro dias, pois precisava resolver alguns assuntos pendentes. Somente depois é que prestou atenção à bagagem ainda na sala; separou o que seria lavado do que não tinha sido vestido, mas depois decidiu lavar tudo; tirou um dos sacos da lavanderia do armário da cozinha, preencheu o rol e arrumou tudo para, mais tarde, deixar na portaria do prédio para o pessoal que viria buscar.

Separou com carinho a caixa que Albertina dera, abrindo devagar e cuidadosamente a tampa; tinha receio de rasgar o papelão, mas viu que podia confiar nas palavras da velha senhora, quando disse que o material era resistente. Dentro, um pacote de fotos, recibos velhos e outros documentos. Espalhou tudo na cama, separou documentos de fotos, sem reparar muito em cada grupo; só depois concentrou sua atenção em cada um...




Os documentos revelaram recibos do pagamento dos funerais e exéquias de Antônio Ribeira, desde a câmara ardente até o caixão, debitados a Silvano; antigos cadernos de assentos, com registro de soldos e adiantamentos, numa grafia inclinada e elegante, datados de 1866 a 1872; e, finalmente, uma carta de Silvano a Albertina, informando-a da morte do pai e tomando a responsabilidade dos funerais. 






Mas foi nas fotos que a atenção dela mais se demorou; algumas eram bem antigas, com um tipo de moldura metálica que parecia bem gasta pelo tempo, azinhavrada e fosca; outras eram de um tempo mais adiante, fotos de um casamento, depois de uma família com pai, mãe e duas filhas; Elisa reconheceu rapidamente o avô de Albertina; estavam vestidos como se fossem a um evento social, possivelmente uma festa de família ou mesmo uma missa; lembrou-se da expressão da mãe quando dizia que, ao se arrumar demais, ela estava a usar a “roupa da missa”; viu então fotos mais recentes e reconheceu seu pai, de terno e chapéu inclinado de feltro, ao lado de um senhor de barba branca, numa cama de hospital; no verso da foto, apenas uma menção ao local e à data: “Asilo de Mendicidade, São Luiz, 1955”


Examinou cada uma das fotos com cuidado, temendo estragar o papel tão sensível; numa viu um jovem com uniforme completo, como se estivesse prestes a embarcar para a frente de batalha; em outra viu um soldado armado de lança, escoltando um outro que parecia ser prisioneiro; no verso, apenas datas, entre 1867 e 1870; mas eram apenas algo superficial, que encobria algo mais...



Retirou tudo e descobriu, no fundo, um embrulho de veludo vermelho, preso por uma fita que parecia ter sido da mesma cor, mas que, agora, se esmaecera completamente; desatou com cuidado a laçada, mas, mesmo assim, a fita tanto tempo não tocada desmanchou-se como se virasse pó; desembrulhou receosa o envoltório de veludo, revelando um maço de cartas, amarradas desta vez com um laço de fita branca, de onde pendia um pingente com um coração, uma âncora e uma cruz; lembrou-se da mãe usar um pingente igual, que representava as três grandes virtudes: Fé, Esperança e Caridade; desatou com o mesmo cuidado o laço branco, separando a fita e o pingente e, desdobrando as cartas, começou a ler...


(Continua...)

Crédito das fotos: Google Images


domingo, 28 de junho de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - BELÉM - FINAL


O trabalho não rendia.

Por mais que procurasse se concentrar, não conseguia tirar o pensamento da mulher na cama do hospital; precisava entregar o parecer de viabilidade pedido por Emília, mas nada conseguia avançar naquilo que queria; pensou em parar um pouco, dar uma volta, mas sabia que nada daquilo a aquietaria. Os olhos se voltavam para o celular, esperando qualquer notícia da neta de Albertina

Eram exatamente duas horas da tarde quando o celular vibrou e tocou sobre a mesa; Eliza prontamente identificou a ligação e atendeu, o coração acelerado esperando o pior.
- Dona Eliza, sou eu, Jane, neta da Dona Albertina. A vovó acordou e quer falar com a senhora; tem jeito de ser agora?
- Logo estou aí, Jane, é só o tempo de me arrumar e tomar um táxi

Eliza chegou vinte minutos depois , sendo recebida pela médica de plantão, uma moça de cabelos loiros curtos que passou a ela as informações sobre o estado de saúde da velha senhora.
- Ela acordou há mais ou menos quarenta minutos – disse sem pausar a voz – o quadro é estável, mas ela ainda está sem condições de ir nesse momento; precisa ficar mais um dia em observação para que possamos ter certeza de que o quadro se estabilizou completamente.
- Podemos vê-la agora Dra...?
- O meu nome é Laura Doyle; meu plantão se encerra daqui a duas horas; caso a senhora precise de mais informações estarei à disposição.

Eliza agradeceu a atenção e se dirigiu-se ao quarto onde Albertina estava internada; entrou no momento em que a neta arrumava algumas roupas numa sacola, possivelmente para lavar.
- Dona Eliza, que bom que a senhora veio, preciso falar muito com a senhora. É muito importante.
- Imagino que seja, Dona Albertina, mas não se exalte, precisa descansar para se recuperar mais rápido.
- Ligue não pra esses aí de jaleco branco – disse ela apontando para a enfermeira que acabava de entrar – eles não sabem de nada.

A enfermeira, pacientemente, ajustou o tensiômetro no braço de Albertina e começou a bombear, ajustando o medidor para sentir a pulsação; minutos depois levantou a cabeça e sorriu.
- 11 por 7; está muito bem! Logo a senhora vai ter alta - disse no mesmo sorriso.

A enfermeira saiu no mesmo passo silencioso, enquanto Albertina retomava a conversa.
- Eu tenho de pedir o seu perdão, porque eu não contei tudo a respeito da amizade entre o seu pai e o meu avô; fiquei desconfiada que a senhora fosse outro tipo de pessoa e queria paz na minha vida. Me perdoe.
- Não há o que perdoar, Dona Albertina; não dá mais mesmo para confiar em ninguém nesse mundo louco.
- Mas eu devia ter contado que conhecia o seu pai dede o começo, tinha resolvido isso logo.
- Agora isso já passou Dona Albertina, a senhora tem é que descansar.
- Mas eu quero que a senhora fique com a caixa da minha mãe; acho que é melhor que fique em boa mão e prefiro que seja a senhora que fique com ela; tomei a decisão de aceitar a ajuda que o seu pai deixou pra mim, mas não pro meu uso e sim da minha neta; ela merece mais do que ninguém, sacrificando a mocidade pra cuidar de uma velha como eu;
- Resolvemos isso depois; agora descanse.

Despediram-se com um abraço apertado e, logo depois de tomar as informações do estado geral dela pela Dra. Laura, preparava-se para ir embora quando o celular tocou; atendeu rápido sem identificar a chamada. Era Emília, procurando saber se ela precisaria do motorista para o dia seguinte e como estava o andamento do parecer sobre o projeto. Desconversando, Eliza disse que faltavam apenas dois dias para que concluísse tudo, igualmente declinando do motorista. Combinou de ligar assim que estivesse no flat.

No dia seguinte, telefonou para o hospital para saber se Albertina já tinha tido alta; por sorte, os papéis já estavam sendo emitidos e ela iria sair às nove e meia da manhã. Eliza chegou no momento em que ela estava assinando a alta; enquanto arrumavam a bagagem, ela se dirigiu à secretaria do hospital para assinar o pedido de autorização do convênio médico. No mesmo momento, ligou para o banco, onde já iria começar os procedimentos de transferência do dinheiro para a velha senhora.

Quando saiu, Albertina já estava no táxi, apenas aguardando por ela; entrou e deu o endereço ao taxista. As duas não trocaram palavra até chegarem; Jane desceu primeiro, o motorista ajudando a levar a bagagem para a casa, enquanto Eliza ajudava Albertina a descer. Já em casa, levaram-na para o quarto, onde a puseram na cama; já de posse da receita fornecida pelo médico, pediu a Jane o telefone de uma farmácia nas proximidades que fizesse entregas em domicilio. A jovem apontou para um pequeno panfleto sobre o criado-mudo, um anúncio de uma farmácia inaugurada recentemente na rua; lembrou-se então que o medicamento era controlado, a receita teria de ficar retida no estabelecimento; não era longe, apenas duas quadras da casa; voltou alguns minutos depois, já com a caixa de medicamentos nas mãos; quando voltou ao quarto para administrar o remédio, Albertina estava sentada na cama, com uma caixa de papelão coberta por um revestimento que lembrava um papel de parede antigo.
- Esta é a caixa de guardados da minha mãe, Dona Eliza, tudo o que a senhora queria saber está aí, entre esses guardados; fico a perguntar o interesse num monte de coisas velhas.
- É uma coisa que devo a meu pai. Uma longa história.
- Mais uma vez me perdoe por não ter contado o que eu sabia desde o começo, senhora, mas, sabe como é, quando a esmola é demais...
- Não se preocupe. Eu tomei todas as providências para que a senhora receba o dinheiro deixado por meu pai; tenho certeza de que será bem usado.
- Como eu disse, é pra minha neta, uma ajuda pro futuro dela e uma paga por ela ser tão dedicada e cuidar de mim.
- Eu queria que a senhora falasse mais a respeito de como conheceu meu pai, Dona Albertina
- É história comprida, mas eu falo uns pedaços. Seu pai veio aqui faz tempo, eu ainda era solteira, pra falar do meu avô; disse que tinha conhecido ele, que tinha morrido num hospital em São Luis do Maranhão e que estava providenciando um jeito dele ser trazido pra cá e enterrado aqui. De começo fiquei desconfiada, senhora, achando que era alguma pilantragem, até que ele mostrou uma foto do meu avô no hospital com ele, como se tivessem conversando. Ele me disse que quando pudesse iria ajudar de algum jeito. Me espantei quando recebi um telegrama de que o corpo do meu avô estava chegando e que eu devia me preparar para fazer o enterro; tudo foi feito no nome dele, até o jazigo aqui na Soledade; depois ele disse que viria e tentaria ajudar mais; depois disso não tive mais notícia e acabei esquecendo; nem tive tempo de agradecer pelo meu avô. As coisas estão aí, veja no que elas podem ajudar; sou muito grata por cuidar disso;

Eliza segurou a caixa com cuidado, receosa do papelão se desmanchar; sentiu, porém, que estava firme, como se fosse algo mais recente
- Não se apoquente, isso é coisa boa, coisa fina, que não se desmancha fácil como as coisas de hoje;

Eliza sorriu e abraçou Albertina com um carinho que há muito não tinha por alguém; não sabia explicar o gesto, ela tão hierática e formal com as pessoas; aceitou um café que Jane oferecera e sorveu prazerosamente, enquanto conversava de outros assuntos com a velha senhora. Por fim, se despediu dela, mas pediu à neta que mantivesse contato sempre que precisasse; iria ficar ainda mais alguns dias na cidade antes de voltar ao Rio, mas queria saber de cada passo da recuperação dela.

Ao chegar no flat , sentiu uma imensa vontade de nada fazer, de ficar apenas quieta, sem nada pensar ou fazer; tomou um banho, foi para o quarto, deitou-se e, no afã de querer o sono, sem saber nem sequer o porquê, chorou.

O parecer ficou pronto três dias depois, mas chegou igualmente a notícia de que, devido a alguns aspectos não explicados, o projeto teria de ser adiado; Eliza tentou descobrir o que tinha acontecido, mas desta vez encontrou uma Emília evasiva, de expressão contrafeita, como se algo importante não tivesse seguido adiante. Conversaram rapidamente, a outra simplesmente agradecendo pelos serviços e passando o comprovante de uma ordem de pagamento em que reembolsava as despesas que ela pudesse ter feito;

Era um fim de tarde nublado quando Eliza tomou o taxi do flat para o aeroporto de Val de Cans; passou a manhã inteira na casa de Albertina, onde terminou a conversa anterior e entregou a ela o comprovante da transferência do dinheiro deixado por Silvano; abraçou-a longamente na hora da partida, ambas prometendo não deixar de mandar notícias; depois, despediu-se de Jane e tomou o táxi para o aeroporto. Muito mais coisas iriam contar mais histórias....

domingo, 21 de junho de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - BELÉM - PARTE V


No dia seguinte não teve tempo para pensar em outra coisa senão nos croquis que Emília havia enviado; imaginava como poderia viabilizar aquele projeto, que tinha, como sói acontecer nesses casos, forte marketing político; a amiga a visitou na parte da tarde, onde aproveitaram para conversar sobre a participação na empreitada.
- Bom, Eliza, não é necessariamente o seu escritório, mas você; quero que você supervisione tudo do começo ao fim, sem deixar um detalhe de lado.
- E quando os trabalhos estão previstos para começar?
- Logo que você examine tudo para dar seu parecer. A licitação foi aprovada, e, nesse caso, você tem de apresentar um orçamento para que tudo fique em ordem e possamos iniciar.
-Precisarei de pelo menos uma semana para examinar tudo. Preciso igualmente examinar os locais que serão de alcance do projeto, para determinar um parecer mais exato.
-Sem problemas, cara amiga; agora, porque não jantamos e falamos de amenidades? Por exemplo, se tem aproveitado para conhecer a cidade, se não se importar, é claro.
- Nem um pouco – sorriu, relaxando a expressão –podemos jantar aqui mesmo? Não estou com muita disposição para sair.
- Vamos encomendar algo para jantar então; conheço um restaurante japonês bem tradicional na cidade, podemos pedir algo de lá.

Eliza assentiu com a cabeça; estava mesmo indisposta, mais pelas coisas que martelavam sua cabeça do que pelo cansaço; adorava comida japonesa e iria aproveitar bem o jantar. Só esperava que a conversa não fosse desagradável...

Emília, de pronto, sacou do celular e discou o número do restaurante; em minutos já havia feito o pedido e ligava para que Jeremias, o motorista, fosse buscar a encomenda, dispensando o entregador. Vinte minutos depois o interfone anunciava a chegada da refeição, que foi muito bem consumida pelas duas, entre conversas entrecortadas. Mais uma vez ela perguntou do passeio, se tinha apreciado as construções da cidade velha e se tinha gostado da atmosfera da cidade. Eliza procurou ser solícita sem necessariamente ser muito explicita, pois sabia que ela quereria saber das visitas ao bairro da Pedreira; mesmo correndo o risco da desconfiança, tinha pedido ao motorista que fizesse discrição do que havia ocorrido.

O jantar tinha corrido bem.

Despediram-se num abraço cordial, combinando para, dentro de dois dias, visitarem o local do projeto; Eliza estava de bom humor e sorria quando acompanhou Emília até a porta...

Na manhã seguinte, não ligou requisitando novamente Jeremias; queria ir na casa de Albertina sozinha, sem qualquer pessoa estranha perto; queria ter tempo de sobra para conversar mais, saber de mais coisas da ligação do seu pai com o avô daquela senhora. Saiu do flat logo depois do café, tomando um táxi de um posto próximo; pediu ao chofer que fosse para o endereço o mais rápido possível, pois tinha um compromisso urgente lá; tinha um pressentimento estranho, um algo dentro de peito que não sabia o que era, mas que crescia à medida que ele achegava mais perto.

Ao chegar viu a neta na entrada da casa, num gesto de ansiedade contida, como se esperasse algo acontecer.
- O que está havendo? Onde está Dona Albertina?
- Ela está muito doente, senhora, liguei pro SAMU mas estão demorando demais; a senhora pode ajudar, por favor? – disse a jovem, os olhos já marejados – ela está assim desde ontem, não sei mais o que fazer.

Eliza então ligou para o serviço médico de emergência de seu convênio, e entrou na casa, guiada pela jovem; logo ao chegar no quarto, conteve uma expressão de horror...

Dona Albertina estava na cama, uma compressa sobre a cabeça, respirando com dificuldade; a expressão parecia ter perdido toda a cor, apenas os vivos olhos verdes pareciam ser mais fortes do que o resto dela; esses mesmo olhos se avivaram mais ainda ao ver Eliza chegar; ela quis gesticular, mas teve suas mãos contidas
- Por favor Dona Albertina, relaxe, o socorro já está vindo

E, como de praxe, a ambulância do convênio chegou bem antes, os paramédicos fazendo o primeiro atendimento e colocando a senhora na ambulância; Eliza resolveu acompanhá-la, o veículo tomando a direção do Hospital Central...

Foram exatamente duas horas de uma espera terrível; Eliza apenas acompanhava o vai-e-vem de médicos e enfermeiras, sem nenhuma nova do estado de saúde de Dona Albertina; entre um e outro copo d’água, ela e a jovem neta compartilhavam a ansiedade por notícias; enfim, um jovem medico trouxe as tão esperadas novidades
- A senhora é a Dona Eliza? – Perguntou calmamente o médico – tenho já o boletim do estado de saúde de Dona Albertina; peço, para que ela se recupere melhor, que a senhora não faça alarme do que vou dizer.

A expressão grave no rosto do jovem médico não era, de forma alguma, portadora de boas notícias; Eiiza concordou e esperou pelas palavras do médico
- Dona Albertina sofreu um sério acidente vascular, causado por um aneurisma; conseguimos contornar o problema, mas não sabemos como ela ficará; ainda é cedo para se dizer se ela terá sequelas ou pode se recuperar de todo; só nos resta agora esperar pela recuperação plena.
- Podemos falar com ela agora doutor? Perguntou ansiosa a jovem
- Ainda não, pois ela está sedada e continua em observação; só podemos deixar que um acompanhante fique com ela esta noite; regras do hospital, espero que entendam;
- Fique então – disse Eliza à jovem – eu preciso descansar um pouco depois de tudo isso; esse é o meu número de celular; me ligue assim que precisar de alguma coisa, eu virei de imediato.

A jovem guardou o número no bolso e acompanhou o médico ao quarto de Dona Albertina; Eliza os viu se afastar até virarem um corredor que conduzia à ala dos apartamentos; depois tomou um táxi de volta ao flat, onde, logo ao chegar, serviu-se de uma generosa dose de uísque com gelo, no intuito de forçar o sono. Sabia que ele iria demorar a chegar.

E, de fato, não chegou

domingo, 14 de junho de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - BELÉM - PARTE IV




O cemitério da Soledade tinha um ar de deslocamento em relação à crescente modernização da cidade.
Antes o cemitério central, foi pouco a pouco substituído por campos santos mais modernos e mais afastados; parecia ainda difícil, mesmo com as pretensas cientificidades, pensar na morte como um fator constante, imutável na própria vida; daí a lonjura cada vez maior dos chamados “últimos lugares de repouso”

Eram exatamente sete horas da manhã quando Eliza atravessou o portão de ferro trabalhando em intrincadas volutas, num estilo que não mais se via tão facilmente; percorreu o corredor central sem pressa, pois ainda tinha trinta minutos antes de se encontrar com Albertina. Notou o estilo elaborado e sofisticado de alguns dos túmulos, claramente de famílias abastadas da época; uns muito bem cuidados, com ramalhetes de flores frescas ainda orvalhadas, outros com evidentes marcas de que há muito não vinham entes queridos zelar por eles; andou devagar , notando idiomas estrangeiros nas inscrições, notadamente em inglês, francês e alemão; num deles notou que uma família inteira, de origem inglesa, tinha sido enterrada com diferença de poucos dias, possivelmente vitimados por alguma doença tropical que não tinham defesa; em outro, um jovem que mal completara vinte e um anos, falecido em Paris, tinha sido transladado um ano depois de sua morte e enterrado com os pais, que faleceram um bom tempo depois; ficou a perguntar-se o que o teria levado em tão prematuro viço de idade, quando um leve cutucar tirou-a de suas indagações.
- Bom dia, Dona Eliza, tudo bem com a senhora?
- Tudo bem, sim, Dona Albertina, espero não tirar a senhora de sua rotina vindo nessa hora.
- Não mesmo! Aqui neste lugar de paz poderemos conversar melhor. Não se preocupe, deixei minha neta comprando umas flores pra pôr no jazigo do meu avô e de minha mãe

Sentaram-se num dos bancos de pedra que ladeavam uma pequena praça onde uma grande cruz demarcava o centro geométrico do local, onde a poucos metros, uma capela dominava o restante.
- Fiquei tentando atinar o que o meu avô teria com o seu falecido pai, Dona Eliza, mas não consegui pensar qual razão ; a senhora saberia de alguma coisa?

Eliza, ainda um tanto desconfiada, não quis se abrir imediatamente, mas, assim que a conversa fluiu, ela percebeu que não podia mais ficar apenas tateando para descobrir a verdade; precisava ir direto ao ponto, entre tantas outras coisas.
- Bem, Dona Albertina, ele me disse que o seu avô deixou algumas coisas pra ele, que ele deveria contar a história de tudo o que ele viveu

Albertina sorriu de forma condescendente, com um ar de compreensão veneranda, como um adulto a considerar o deslumbramento das descobertas de um adolescente.
- Minha mãe falava das maluquices dele, de guardar as coisas num baú velho; ela se perguntava pra que ele fazia aquilo; ele dizia que alguém “com mais leitura” que ele iria contar a história de todas aquelas coisas – disse, entre sorrisos – coisa de velho, a senhora sabe.

Eliza ficou em silêncio. Lembrava do pai, com o hábito de guardar a menor tira de jornal que tivesse importância, objetos que, pra ela, não tinham a menor serventia. Apenas assentia com a cabeça enquanto Albertina falava.
- Pois é, minha mãe pelejou muito com ele pra que largasse mão dessa doidice, mas ele nem aí pros falares dela; mas quer dizer que ele então deixou o baú pro seu pai e daí pra senhora; mas que valor ele dava pra isso, pra deixar tudo pro seu pai?
- É o que quero saber, Dona Albertina; o que liga tanto meu pai ao seu avô
- Pouco sei dele, pois eu era menina quando ele morreu; mas tenho muita coisa guardada na minha casa, lembrança dele que ainda ficou lá. A senhora pode tirar um dia e ver tudo; mas lhe digo que vai levar tempo; a única coisa que minha mãe dizia é que ele tinha lutado numa guerra num lugar chamado Paraguai no tempo dele de moço, e olhe que ele morreu muito velho, com cento e tantos anos; venha, deixe eu lhe mostrar onde ele está.



Caminharam alguns metros até uma pequena alameda, onde uma fileira de pequenos túmulos fazia frente com outra alameda onde túmulos mais suntuosos, de clara inspiração europeia, ladeavam um jardim pequeno; de início, Eliza julgou tratar que o túmulo do amigo do pai ficasse nessa extensão de locais mais simples, mas quando Albertina apontou para o local onde ficava a sepultura, não pôde deixar de expressar espanto; o túmulo era típico de uma família abastada, embora desse pra notar que era mais moderno em alguns aspectos , como a grade mais simples e sem mármores encimando a entrada, apenas uma placa de estuque onde se lia “JAZIGO PERPÉTUO DA FAMÍLIA RIBEIRA”. Albertina tirou do bolso do vestido uma chave, que usou para abrir a porta do jazigo; a neta esperava com vários ramalhetes dispostos nos braços; Albertina tomou-os e se dirigiu ao interior do local, onde começou a substituir os murchos pelos frescos. Eliza ia logo atrás dela, notando as placas onde se lia: ”ANTÔNIO RIBEIRA, 01-12-1851/24-08-1956”, depois ao lado se lia: “CECILIA RIBEIRA 02-05-1878/09-09-1885” e , por último, “AMÁLIA RIBEIRA BERGANTIM, 03-04-1874/12-03-1961". Ela reparou no retrato acima da sepultura do amigo do pai; era o retrato da época da Guerra do Paraguai e o mostrava jovem, altivo e com vivos olhos verdes que pareciam devassar completamente quem o fitava; “então este é você, Antônio Ribeira, finalmente o conheço”, pensou, de si para si...







Créditos - Google Images

domingo, 7 de junho de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - BELÉM - PARTE III


O Bairro da Pedreira era um dos bairros mais pitorescos e boêmios da capital paraense.

Conhecido como “Bairro do Samba e do Amor”, sempre teve fama de lugar despojado e de ambientes descontraídos, onde sempre havia gente se divertindo e os bares atraíam muita gente durante os fins de semana


Mas não havia muito movimento nas ruas quando ela chegou, talvez porque fosse ainda meio de semana; só os locais já ensaiando sua diversão. Jeremias percorria o local devagar, prestando atenção aos lugares que se lembrava, para localizar o endereço que ela passara a ele.
- A senhora está certa do endereço, Dona Eliza?
- Estou sim, Jeremias; Travessa Lomas Valentinas 483, a não ser que aquela afilhada dela tenha mentido.
- Não sei não, senhora, aquela mulher parecia ser tinhosa

O motorista continuou guiando devagar, prestando atenção nos números, até que percebeu um sobrado, pintado de branco com azulejos escuros e beiral, destacado das demais casas baixas da rua; conferiu o número e parou em frente; Eliza desceu e tocou a campainha; não demorou muito uma jovem de cabelos negros compridos e olhos verdes veio até a porta.
- Bom dia, estou procurando Dona Albertina Ribeira, ela mora aqui?
- Mora sim, senhora; ela é minha avó; espere um minuto que eu vou chamar,

Eliza fez um sinal para Jeremias de que estava tudo bem; ele já tinha encontrado alguns conhecidos e já entabulava uma conversa, enquanto ela esperava; logo uma senhora de porte altivo, cabelos brancos amarrados num coque, veio até a porta.
- Bom dia, moça, queira entrar; minha neta me disse que a senhora queria falar comigo? Posso saber o motivo?
- Vim da parte de meu pai, Silvano Tomaz, que conheceu um parente seu, Antônio Ribeira. Sua afilhada me passou o seu endereço e lhe manda lembranças
- Ele era meu avô sim, senhora – falou em tom suave, mas seguro, ignorando completamente a menção da afilhada – como o seu pai conheceu ele?
- Faz muito tempo, em São Luís do Maranhão; ao que parece meu pai o ajudou e tinha grande estima por ele.
- Eu era ainda meninota quando ele morreu, mas minha mãe falou uma vez desse amigo dele...como é mesmo o nome?
- Silvano, Silvano Tomaz
- Ah, sim, ela me falou uma vez; um senhor que parecia ser jornalista, não é mesmo?
- Sim, meu pai era jornalista; na época ele ainda era um jovem sem muita experiência.
- E o meu avô era bem velho já naquela ocasião, minha mãe me contava. A senhora aceita um café? Acabei de passar. Mas venha pra sala, a gente conversa melhor
- Vou aceitar sim, obrigada
Eliza observou-a servir o café, cujo aroma era muito atrativo; depois de servir, sentou-se e começaram a conversar.
- Mas o que a senhora traz do seu pai pra mim? Estou ainda meio encafifada.

Eliza tirou da bolsa o envelope que tinha tirado da caixa entregue por Lisandro e falou de todos os detalhes da transferência legada pelo pai em testamento, enquanto sorvia o café; Albertina assustou-se com tudo aquilo, procurando saber o porquê da generosidade daquele senhor, por mais que possa ter sido amigo de seu avô; então lembrou-se de uma das últimas conversas com a mãe falando desse amigo, que tinha mesmo coberto o pagamento do traslado e do enterro do avô no cemitério da Soledade; onde a mãe também estava sepultada.
- Senhora, não me entenda mal, mas não sei se devo aceitar essa generosidade – disse Albertina, espantada com tudo aquilo - é muito para uma pessoa como eu; a senhora viu que minha vida é simples, de aposentada; minha neta mora comigo aqui e me ajuda, a senhora pode ver; não posso me aproveitar do seu pai, mesmo que ele tenha sido muito amigo do meu avô
- O meu pai deixou em testamento esse dinheiro, Dona Albertina, e ele fez questão de que eu pessoalmente entregasse a ordem de pagamento pra senhora; isso foi a vontade expressa dele; uma carta dizia que era uma obrigação que ele tinha com o seu avô.
- Ele foi um homem que lutou muito, senhora – continuou Albertina, recompondo-se do espanto – sempre foi. De jamais deixar faltar nada pras filhas. Ele teve duas, minha mãe e uma tia mais nova, que morreu de cólera ainda menina; minha mãe guardou muita recordação, acho que ainda tenho tudo numa caixa que guardei. Amanhã mesmo vou levar flores na sepultura dele e de minha mãe lá na Soledade. A senhora não quer ficar pra almoçar? Estou fazendo um guisado de frango caipira.

Eliza olhou para o relógio de parede. Quinze para o meio-dia. Ela declinou do convite, mas disse que encontraria Albertina no dia seguinte, se ela não se incomodasse. Queria saber mais sobre a ligação de seu pai e Antônio Ribeira. Iria resolver seu assunto com Emília e iria mais a fundo na história
- Não, não me incomodo não; mas vou pra Soledade logo de manhãzinha, porque de lá já passo pro mercado pra comprar umas coisas pra casa, a senhora sabe.
- Não há problema, dona Albertina, eu a encontro lá; a que horas?
- Cuido de chegar cedo; sete e meia estaria bom?
- Sem problema para mim. Encontro a senhora lá. Obrigado pela conversa e pelo café.
- Desculpe pelo espanto, senhora, mas essas coisas não se dão assim todo tempo
- Eu entendo, não se preocupe. Até lá.

Eliza pediu a Jeremias que a levasse em um bom restaurante no centro; ele a levou a um que ficava perto do Forte do Castelo, de onde tinha sido fundada a cidade; pediu uma refeição leve de frutos do mar para ela e para o motorista e, depois do almoço, pediu que a levasse em casa; teria muito o que pensar...


Já no apartamento, espalhou os croquis pela cama e examinou cada um deles; eram projetos ambiciosos, e, se realmente saíssem do papel, seriam o espelho de uma política sensata de preservação funcional do Patrimônio Histórico; embora admirasse de cara o arrojo do projeto, ela bem sabia que serviria mais pra vitrine política de alguns do que qualquer outra coisa; mas decidiu examinar minuciosamente cada dum deles, a fim de dar um parecer ponderado.

Mas não deixava de pensar um Albertina Ribeira, e na amizade de seu pai com o avô dela...