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sábado, 28 de novembro de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VELUDO VERMELHO - PARTE XIX

CHARLTON HOUSE, 1890

Aurélio parecia ter feito as pazes com sua vida.

O casamento com Agnes transcorria feliz, os filhos tinham crescido e seguido suas vidas; Anna estava noiva de um promissor oficial da Marinha Real e Aurélio, mesmo a contragosto do pai, seguiu carreira militar e estava por se graduar em Sandhurst; o terceiro filho, Matthew, já nascido em solo inglês, era quase saído da meninice; Aurélio ainda recebia com alguma regularidade cartas da irmã, que cuidava do patrimônio que coube a ela no espólio do pai; não se casara novamente, pois ela dizia em suas cartas que “se cansara de esperar por promessas que não se cumpririam; os jogos amorosos agora eram um enfado”; ficou a pensar na irmã de outros tempos, ansiando por aventuras românticas; os tempos mudavam e as pessoas também...

Seus pensamentos foram interrompidos pelo som de passos vindos do corredor; a criada trazia uma bandeja com chá e madeleines recém-assados, cujo aroma se espalhou pela sala; sem dizer palavra, deixou-a sobre a mesa e afastou-se. Ele se limitou a sentir o aroma dos doces, ainda relutando em comer; ouviu novamente o som de passos, desta vez mais leves e compassados.



- Que pensamentos são esses que tanto o perturbam, meu querido? -  Ela percebeu através da calma o olhar profundo e preocupado.
- Sabes que reneguei todas as coisas de meu passado na guerra, todas as dificuldades que passei; tentei com todas as forças manter isso longe da família; a opção do meu filho simplesmente me tirou o chão.
- Ele nada mais fez do que você mesmo quando decidiu se alistar, não lembra? O seu pai também não aprovava, mas assim mesmo fez o que fez e quase não consegue se despedir dele.

A observação da esposa o chamou à razão; ela sempre sabia o momento certo de chamá-lo ao bom senso, ao equilíbrio; essa soma de forças fazia com que tudo na vida deles, das finanças à relação com os filhos, fosse sempre assim, sem percalços.

Deu as mãos a ela e, por fim, provaram do chá e dos doces..





SPION KOP, Africa do Sul, 1900

O calor era insuportável.

Os nervos dos homens já tinham alcançado o limite; o entusiasmo inicial já os havia abandonado há tempo; acossados pelos tiros precisos dos rifles Mauser dos Boers e sob fogo constante de artilharia – os canhões inimigos não podiam ser localizados, pois já usavam a nova pólvora sem fumaça, que tornava inútil o treinamento dos observadores de artilharia, que se orientavam pela fumaça dos disparos – muitos se desesperavam, igualmente atormentados pela sede e pela fome; a ilusão de uma vitória fácil sobre os teimosos fazendeiros sul-africanos se desfez...



O capitão Aurelio Charlton – chamado pelos homens de “Captain Aurell”, pela dificuldade em pronunciar seu nome brasileiro – municiava sua pistola Mauser C96 enquanto usava um periscópio para sondar o horizonte; para surpresa dos soldados, o topo do monte era da mais dura rocha, impedindo que se cavasse uma trincheira profunda; o resultado foi que embora dominassem a colina, ficavam expostos tanto ao fogo de artilharia quanto aos tiros precisos dos rifles. O local ficou juncado de mortos e feridos e o cheiro já era pungente demais para suportar.



Foi então que ouviram os gritos.

Uma leva de centenas de Boers atacou a colina, avançando sem medo e com um aguerrimento que surpreendeu os britânicos; se seguiu uma luta sem quartel, onde o inimigo, mesmo sofrendo pesadas perdas, conseguiu empurrar os ingleses para um terreno onde não havia muita chance de defesa. Aurélio tentava organizar uma resistência, mas os homens, debilitados pela sede e pelo cansaço, estavam no fim de suas forças e os reforços falharam em levantar o cerco; enfim, vendo que nada mais podia fazer, o oficial comandante ordenou a retirada, deixando os mortos e os feridos que não podiam ser resgatados no topo da colina...



Carregado por dois soldados, o capitão Aurelio, ferido na coxa e no antebraço esquerdo, foi conduzido a uma ambulância, onde um sargento indiano, de baixa estatura e com um pequeno bigode, o ajudou a acomodar-se, enquanto um enfermeiro verificava seus ferimentos; com um misto de raiva e desapontamento, olhou ao redor e viu, do outro lado do rio Tugela, a colina que tantas vidas havia custado, fruto do desconhecimento e da incompetência de generais pomposos que não se importavam com os homens; insistiu em ficar para ver a situação dos soldados, mas o oficial médico disse que ele precisaria de mais cuidados no hospital de campanha, se quisesse sobreviver ; a ambulância preparava-se para partir quando ele se dirigiu ao indiano que o ajudara.
- Sargento, veja que esses homens recebam o melhor cuidado possível; lutaram com muita coragem e não merecem ser deixados de lado.
- Me assegurarei disso,senhor – disse o indiano.
- Muito bem, fico mais tranquilo em saber que posso contar com isso, sargento...
- Gandhi, capitão; Mohandas Gandhi, do Serviço Indiano de Ambulâncias.

Aurélio respondeu a continência e deu duas pancadas no madeirame, sinal para que a carroça seguisse em frente; teria muito a relatar aos seus superiores, depois que saísse do hospital...




Créditos das Imagens - Google Images

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VELUDO VERMELHO - PARTE XVIII


Eliza sorriu enquanto ele conferia o GPS.

A bucólica paisagem campestre inglesa era um alívio, depois do burburinho londrino; ele imaginara uma cidade fleumática, de tipos formais e silenciosos; espantou-se com a agitação, que ele achava tão tipicamente americana.

- Essa Londres é bem dos livros de mistério ou de peças de teatro, meu amor; depois dos Beatles e dos punks, ela jamais foi a mesma, mas mesmo assim é encantadora – disse ela, divertindo-se com o espanto dele.

Sorriram juntos, enquanto seguiam adiante.

As estradas rurais, mesmo com seu visual encantador, revelaram-se um desafio; mesmo ela , tendo residido algum tempo no país, jamais se aventurara fora de Londres sozinha, e, quando viajava, sempre era com alguém que conhecesse bem o caminho; por sorte, tinham descoberto no apartamento de Derek um guia das casas de campo da região, onde Charlton House aparecia como uma das mais antigas casas descritas; “vai ser mais fácil assim”, pensou ele.



Isso seria mais fácil dizer do que fazer.

Embora figurasse como uma das casas mais antigas daquela parte, havia pouca coisa sobre a localização, que , segundo o guia, dava apenas uma referência de uma colina próxima, densamente arborizada, que a fazia ficar oculta aos que vinham pela estrada.

Uma estrada vicinal de macadame, quase escondida pelas cercas-vivas que estavam nos lados da rodovia, revelou uma placa onde se via “CHARLTON HOUSE 2 miles”; a estradinha era emoldurada por pedras toscamente talhadas, que davam um aspecto antigo; rumaram por ela até que chegaram a um portão escuro, onde letras douradas formavam um monograma que, certamente, deveria ser o dos Charlton; Eliza desceu e se dirigiu até o portão, apertando a campainha para ver se era atendida; uma voz misturada com estática perguntou se eram visitantes, pedindo que voltassem em um hora, pois o horário de visita guiada começava por volta de duas da tarde; Eliza respondeu num tom firme, e, dentro de poucos minutos, o portão se abria, revelando, no alto da colina, a casa que os tinha intrigado tanto; Walter reparou na cerca branca a uns cem metros da casa, nos fundos, mas procurou prestar atenção no caminho até a entrada. Já os esperava uma mulher aparentemente de meia-idade, cabelos brancos arrumados num coque elegante e de olhos azuis expressivos.


- Bom dia, espero que sua viagem tenha sido agradável – disse a mulher em um tom formal, de uma cortesia que parecia camuflar sua verdadeira expressão – Sou Mavis Lockhart, governanta e curadora de Charlton House; no momento, o senhor Mark Charlton se encontra em Paris a negócios, mas se eu puder ajudar, podem falar comigo.
- Muito agradecidos , Sra. Lockhart.
- É Senhorita Lockhart, minha cara, eu sou filha única , e o trabalho de cuidar de meus pais não deu-me tempo para ter família.
- Perdoe-nos então , senhorita; estamos em viagem pela Inglaterra e aproveitamos para conhecer a casa, pois tem um pouco a ver com uma pesquisa que estou fazendo

Eliza, então, contou a Mavis toda a história desde o princípio, desde o testamento do pai até a circunstância que a levou até lá; a governanta a fitava com olhar inquisidor, como se cada parte da história acendesse uma luz em seus pensamentos; por fim, ela conduziu Eliza até uma sala próxima do vestíbulo, onde uma galeria de retratos de família dominava a decoração; no quadro maior, a família composta do marido, da esposa e dois filhos, uma menina, mais velha, aparentando ter quatorze ou quinze anos, a esposa, sentada numa cadeira de espaldar alto, e um menino, que deveria ter uns oito ou nove anos, abraçado à mãe; ela notou que o homem não assumia a pose formal geralmente encontrada nos retratos de família, mas trocava olhares cúmplices com a esposa e os filhos; outros retratos mostravam as mesmas crianças, mas desta vez não eram pinturas, mas daguerreótipos que mostravam cenas de viagem, de lazer e mesmo de um casamento de família.
- Aqui, um pouco da história da família, minha cara; a propósito, seu nome...
- Eliza Thomaz, sou arquiteta e tenho um escritório no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro;
- Interessante! Há algum tempo uma outra pessoa com este sobrenome esteve aqui, em busca de alguns documentos; a senhora por acaso sabia que, naquele retrato de família que viu, o marido de Lady Charlton era um brasileiro? Ela o conheceu quando o pai tinha negócios naquele país, há mais de cem anos.
- Essa pessoa seria por acaso um jornalista chamado Silvano Thomaz?
- Eu creio que sim; ele deixou aqui um cartão de visita que eu devo ter guardado; ele é seu parente?
- Ele era meu pai, senhorita; e eu estou aqui, como já expliquei, para concluir um trabalho dele. Ele faleceu recentemente e deixou esse trabalho inacabado.
- Eu sinto muito senhora, espero que esteja tudo bem.
- Não se preocupe, isso já ficou para trás; espero não incomodar mais que o necessário
- Não, não será incômodo, por favor, me acompanhe.

Walter e Eliza a seguiram, imaginando que histórias a casa poderia contar...

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VELUDO VERMELHO - PARTE XVI


O voo chegara em Heathrow com uma hora de atraso.




Desembarcaram com a preocupação de que Derek e Sonja, os amigos de Eliza que moravam em Londres, se desencontrassem deles; viram depois de sair do avião a densa neblina que rodeava o lugar; aquela paisagem já era comum para ela, que tantas vezes visitara a cidade, mas era uma completa novidade para ele, que apenas tinha noção por meio de livros, filmes e material publicitário; agora, era uma realidade que se apresentava; ela segurava firme a mão dele, caminhando em passo apressado, tentando ficar em um lugar que agilizasse a recuperação da bagagem; a azáfama de pessoas e a babel de idiomas que circulavam ali pareceu tonteá-lo.



Derek e Sonja esperavam em um dos cafés próximos e, assim que viram Eliza e Walter se aproximarem, acenaram; Eliza sorriu ao reconhecê-los e Walter sorriu igualmente, respondendo ao aceno. Derek era alto, de cabelos louros finos e olhos azuis, enquanto Sonja tinha cabelos negros e olhos castanhos; abraçaram Eliza efusivamente, pois fazia tempo que não se encontravam, a correspondência esporádica de alguns e-mails trocados ocasionalmente; mas o laço de amizade que os unia era grande; Sonja estudara com Eliza e Derek era um grande amigo que ela apresentou, dando um empurrãozinho para que o relacionamento decolasse.

Agora, ela estava surpresa por ver a amiga com um relacionamento sério; sempre vira Eliza como uma pessoa focada no trabalho, sem muito tempo ou disposição para nada além de estudos e projetos; mesmo o sorriso dava novos are, como se tivesse nascido uma outra pessoa. Walter simpatizara com eles e quebrou-se o gelo quando falaram em português fluente; embora dominasse bem a língua inglesa, ainda estava se acostumando com a atmosfera para ficar à vontade.

Depois de tomarem café, Derek os levou até o estacionamento, onde o carro já esperava; depois de muito tempo de trânsito intenso, chegaram ao apartamento dele no bairro de Bayswater, onde sugeriu que tomassem um banho, trocassem de roupa e descansassem um pouco, antes de começar a andar pela cidade.


- Mas não é o seu apartamento? Imagino que iremos incomodar.
- Nem um pouco. Será de vocês o tempo que ficarem aqui. Eu e Sonja iremos para a Itália em três dias, para passar algum tempo na Toscana; considerem minha casa a casa de vocês a partir de agora.
- Mas temos reservas; como faremos?
- Isso eu posso resolver. Não se preocupe, aproveite seu tempo aqui, vai gostar muito. Ficarei com Sonja no apartamento dela em Chelsea até o dia da viagem.

Walter foi até a cozinha, onde Eliza e a amiga conversavam e falou sobre a oferta de Derek; ela pediu que o amigo reconsiderasse, mas ele recusou terminantemente.
- Não se preocupe, minha amiga; era o mínimo que eu poderia fazer; deixe as reservas comigo; apenas você e o Walter relaxem e curtam a viagem; deixei um mapa sobre como vocês podem localizar a Charlton House; não vai ser difícil, pois ela é uma das propriedades já no começo da rodovia. Ao que parece, apenas uma pessoa toma conta do local e acho que não terão problemas.

Os amigos trocaram abraços e puseram-se a planejar para onde poderiam ir na noite londrina...

domingo, 11 de outubro de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VELUDO VERMELHO - PARTE XV



SÃO LUIS, 1873

Ele acordou com o som dos bentevis.

Ela ainda dormia, o braço enlaçado nele, os cabelos soltos espalhados pelo travesseiro, o respirar leve e a expressão terna que o fez sorrir; parecia que ela sempre revelava um algo mais, como se, a cada tempo, uma nova e encantadora parte dela se fizesse descobrir. 




Pensou no tempo. Fazia um ano e meio que estavam casados, desde que ele criara coragem para falar dos sentimentos dele, de início com pequenas e veladas mensagens, até que finalmente falou a ela do que sentia; esperava uma solene rejeição, mas foi surpreendido com o brilho nos olhos que só os apaixonados possuem; tiveram, porém, de esperar que o período de luto pela morte do pai terminasse e foi com alegria que a cerimônia se realizou, na Igreja da Conceição, onde amigos, companheiros de faculdade e antigos camaradas de armas se acotovelaram para vê-lo se casar com Agnes. A alegria agora era parte de sua vida; tudo o que vivera antes, a dor, os ferimentos e todo o sofrimento da guerra ficaram finalmente para trás;



SÃO LUIS, 1875

O telegrama chegou por volta de onze e meia.

Ele recebeu-o das mãos do estafeta e sentiu que algo que parecia ser um presságio.

Agnes embalava o pequeno Aurélio, enquanto Anna, a mais velha, estava sentada quieta ao lado do berço. A vida corria tranquila; Júlio trabalhava como advogado da Booth Line, companhia de navegação que era responsável pelo tráfego não somente comercial, mas de passageiros entre os portos ingleses e franceses da costa atlântica e os da costa brasileira, de Manaus e Belém até o Rio de Janeiro; tinha igual dedicação com a política local, sendo um dos delegados do Partido Liberal na cidade, com uma possível indicação para disputar a vereança. Embora visse os amigos entrarem nos clubes abolicionistas ou mesmo agremiações republicanas, evitava tomar parte, pois não queria nenhum envolvimento com algo que pudesse comprometê-lo de forma tão radical; pensava no pai, um franco partidário do equilíbrio.



Mas aquele telegrama pesava em suas mãos como um aviso.

Entregou o telegrama para Agnes, que o abriu sem pressa; ela pôs o bebê no berço e afagou a filha por alguns minutos antes de abri-lo; fê-lo em movimentos rápidos e correu os olhos pela mensagem; súbito, deixou que o papel escapasse de suas mãos e recostou na poltrona com as mãos no rosto, chorando e soluçando convulsivamente; ele procurou confortá-la, mas ela não conseguia se acalmar; ele procurou acalmar as crianças, que já se agitavam com o estado da mãe; pegou o papel do chão, leu-o e entendeu o porquê;



Mr. Charlton, seu sogro, que o tinha indicado para o cargo na Booth Line, tinha falecido numa epidemia de febre tifóide em Calcutá; o corpo tinha sido transladado para a Inglaterra e Agnes precisaria voltar a Sussex, onde ficava a propriedade do pai, para ouvir a leitura do testamento e organizar os negócios e propriedades.

Não se enganara; naquele pedaço de papel, estava o sinal de que o mundo dele estava por sofrer uma mudança que ele jamais poderia imaginar...

(Continua...)

Créditos das ilustrações: Google Images

domingo, 13 de setembro de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VELUDO VERMELHO - PARTE XI


PROVÍNCIA DO MARANHÃO, OUTUBRO DE 1871

Eram duas da manhã quando ele virou o Largo da Forca Velha, tomando a rua do Mocambo; salvo por um ou outro transeunte, na maioria negros de ganho(1) ou tigres(2), a rua estava deserta; ajeitou o bornal no ombro e continuou, o passo lento e sem pressa. 



Chegou à Rua das Crioulas, iluminada apenas com a luz mortiça dos lampiões de gás; pensava se iam reconhecê-lo, se ainda lembravam de como ele era; ainda conservava as cartas da irmã, mas não tinha conseguido enviar as suas, pois durante a convalescença no hospital de sangue, não conseguira fazer contato com o correio para que as entregasse.


Vinha com a dor remanescente das feridas já cicatrizadas, mas algumas deixaram marcas mais profundas; recuperara-se a tempo de presenciar as batalhas de Peribebuí e Campo Grande, onde o exército paraguaio deixou de existir como unidade combatente; recorriam no desespero a mulheres, velhos e meninos; vira os cadáveres na rota para Assunção, destroçados por balas de canhão e metralha, rostos e corpos desfigurados pelo horror da guerra.



Avistou a casa da esquina, hesitando um pouco antes de retomar a caminhada; pensou no pai, sem trocar uma carta sequer desde que se alistara; pensava agora que teria sido melhor que não o fizesse; o espirito marcial como que o hipnotizara, sonhando em voltar coberto de glória e reconhecido como herói; de que valera? O que viu foi apenas destruição, morte e sofrimento; sentia-se afortunado em voltar, poder rever a todos e principalmente, a família.


Criou coragem e continuou.

Parou diante da porta de madeira escura, com uma aldrava de bronze se destacando no centro; pensou duas vezes antes de bater, imaginando como iriam recebe-lo; cofiou a barba negra, que crescera na convalescença; embora o ordenança quisesse escanhoá-lo, não quis; queria como que se esconder, mascarar-se depois de toda a aquela carnificina que presenciara; perdera amigos, colegas com quem estudara e com quem partilhara alegrias e conquistas; só restara a casa, diante dele, como que a admoestá-lo por partir para uma guerra que, agora, via como completamente sem propósito.

Bateu na aldrava três vezes, lenta e compassadamente; o coração batia mais rápido; quis correr dali, mas agora era tarde; talvez não devesse ter voltado, afinal; os pensamentos, porém, foram quebrados pelo clangor da fechadura sendo aberta e pelo ranger das dobradiças; viu o lampião de opalina branca, carregado por um vulto que, ao colocar a cabeça pra fora, reconheceu como Vicência, a governanta, que tinha sido ama-de-leite de Amália; a mulher levantou o lampião para ver melhor, divisando a figura barbada, vestida em um uniforme surrado e uma barretina puída.
- Que é que vosmecê quer aqui? Não temos nada não; é melhor vosmecê ir embora ou eu chamo o dono da casa;
- Eu mudei tanto assim, Vicência? – perguntou ele, enquanto tirava a barretina e punha o rosto à luz.

Vicência segurou firme o lampião, mas as forças faltaram no susto; ele a segurou, aparando-a com a mão livre; ela custava a acreditar no que via; o filho do seu patrão, dado como desaparecido, estava ali, na frente dela; o rosto estava encovado, parecia mais alto e mais magro, mas eram os mesmos olhos negros vivos, que ela reconhecera; ele amparou-a na porta e ela o fez entrar.
- Patrãozinho! O senhor tá vivo! O senhor tá aqui! Minhas rezas foram ouvidas! Pedi tanto pela proteção do senhor!
- Então tenho de agradecer, Vicência, por tudo; foi um longo caminho, mas estou aqui. Quero ver meu pai e minha irmã; como eles estão? Me fale, quero saber de tudo

Ela, então baixou a cabeça, como a não querer encará-lo. Lágrimas correram dos olhos da negra, e a custo conteve os soluços; ele a fitou com olhos inquisidores.
- Seu Aurélio tá na cama, Patrãozinho, dali ele não saiu mais desde que o noivo da sinhaninha Amália, seu Lucio, disse que o senhor tinha sumido na batalha; caiu estuporado; quase não fala, só faz sinal com a mão; tá que dá pena. A menina Amália foi ajudar D. Emiliana, prima do seu pai, porque a filha dela teve criança e quase morreu de mal-de-sete-dias; passou a noite lá mas volta daqui a pouco; a menina Agnes, filha do inglês brancarão vizinho nosso, ficou tomando conta do patrão;

Ele a acompanhou pela casa, seguindo o bruxulear da luz do lampião; nada mudara muito, a não ser uma espreguiçadeira na sala, que deveria ser por causa do pai; passou pelo corredor em passo silencioso, para não despertar o pai, que já devia estar dormindo
- Venha cá patrãozinho, deixe eu dar um jeito no senhor. Vou preparar um banho quente e trazer a navalha e o sabão de barba
- Queria ver o meu pai antes, Vicência, não ficarei tranquilo enquanto não fizer isso.
Ela tomou então a direção da alcova, onde estavam os aposentos do pai; nisso, outro lampião quebrou a penumbra e ele vislumbrou a figura de uma jovem de cabelos louros escuros, que vinha na direção contrária; lembrou-se da moça que a irmã falara, filha de Mr. Charlton, agente comercial inglês amigo do pai; vestia um camisolão azul claro, encimado por um peignoir também azul.
- Vicência, quem é esse homem? Não me lembro dele visitando o Sr. Aurélio; o que ele faz aqui a essa hora?
- Menina Agnes, esse é o seu Júlio, filho do patrão, o que o seu Lucio disse que tinha sumido na guerra; ele voltou! Está aqui com a gente!

Agnes aproximou o lampião e viu as faces encovadas, os olhos negros, o semblante emaciado, o uniforme em andrajos; lembrou dos daguerreótipos que Amália mostrara, um jovem sorridente e bem-humorado, vestido de forma elegante; tentou ver a correspondência entre as duas figuras. Mas parecia difícil reconhecer no que via o jovem dos retratos.
- Agnes, preciso muito ver meu pai; sei que a hora não é a mais propícia, mas preciso ao menos vê-lo para depois cuidar de mim; em outro momento conversaremos melhor.

Ela, então, o guiou para a alcova, onde o pai dormia pesadamente; mal o reconheceu; os cabelos tinham encanecido e rareado, a testa eivada de profundas rugas; um dos braços estava sobre o peito e o outro, paralelo ao corpo; ressonava pesadamente, parecendo não se incomodar com o bruxulear da chama do lampião; ele então ajoelhou-se ao lado da cama do pai , e, pela primeira vez desde que voltara, desabou em lágrimas...


(1) Negros de Ganho eram escravos que faziam venda de produtos para os seus senhores, mas, dentro de certos aspectos , tinham mais autonomia e recebiam uma porcentagem do produto das vendas; muitos economizavam para comprar a liberdade e acabavam virando pequenos empreendedores, dai viverem, no dizer da época, "No ganho"



(2) Tigres eram escravos que recolhiam, em tonéis chamados "cabungos", todos os dejetos das casas - como nas cidades ainda não havia um serviço de distribuição de água e esgoto, eles carregavam os tonéis e os despejavam nos rios ou em praias; na cidade de São Luís do Maranhão o ponto de descarga era em uma praia chamada Praia do Caju, que foi aterrada nos anos inciais do séc. XX para a construção da estação ferroviária, hoje sede da Secretaria de Segurança Pública; o nome Tigres foi dado por causa dos resíduos que escapavam dos tonéis e caíam no corpo, dando-lhes uma aparência "tigrada"


Imagens - Tumblr/Google Images

domingo, 30 de agosto de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VELUDO VERMELHO - PARTE IX


Ela acordou antes.

Viu o contorno do corpo dele coberto pelo lençol, a nuca e os cabelos dispersos no travesseiro; ainda se buscava depois da tempestade que sentira; era como se um rio inteiro jorrasse incontrolável por ela, rompendo todas as barreiras que um dia ela impusera a si mesma; era como se uma parte dela se libertasse, se revelasse depois de tanto tempo em uma reclusão auto-imposta...

Tudo passou -lhe nos pensamentos como num filme: a roupa apressadamente tirada, a urgência de quererem-se, que a fez voar, cavalgar, mergulhar num mundo que , até então, nem mesmo a palavra era capaz de sequer abranger; abriu todas as portas dos seu ser pra ele, assim como ele abria as portas dele para ela, numa entrega nova a ambos;

Procurou levantar devagar, para não o despertar; ele dormia um sono forte, mas sua respiração era suave como se apenas dormitasse; foi apenas ela levantar-se por completo que ele a alcançou, abraçando-a ternamente e beijando-lhe a nuca
- Desculpe, não quis te acordar; ia preparar algo para o café; coisas orgânicas, não sei se gostas.
- Claro que sim, alterei minha alimentação há algum tempo, quando tive um caso sério de intoxicação. Desde então me alimento quase exclusivamente de orgânicos.
- Com o que você se intoxicou? Não tem o tipo que pode ser suscetível a isso.
- Bom, antes de trabalhar com relações públicas eu me formei em história e me especializei em arqueologia; trabalhei três anos em sítios arqueológicos e num deles me aconteceu com a comida que era fornecida; depois fui diagnosticado com intoxicação aguda por agrotóxicos, mas sobrevivi, aprendendo a lição de apenas comer orgânicos, sem agrotóxicos.

“Mais uma coisa em comum”, pensou ela enquanto sorria; preparou o chá com ervas e o pão integral, colocando tudo no centro da mesa; ele serviu-se, tomou um gole do chá e reparou o espaço do apartamento com as coisas do pai dela; viu o baú, encostado a um canto, e os maços de cartas meticulosamente arrumados em uma mesinha perto dele.
- Coisas do seu avô? - perguntou de forma hesitante; não queria ser invasivo.
- Sim, são dele, ele era obcecado com a Guerra do Paraguai e colecionava coisas da época; ultimamente andei vasculhando algumas coisas pra ele, mas acho que não consegui ir muito adiante; me sinto mesmo um tanto culpada por não estar mais envolvida.
- Talvez eu pudesse te ajudar – aparteou ele – ainda sou bom em levantar dados de pesquisa e não perdi a mão como historiador; poderia dar uma olhada lá?
- Apenas vou pedir que tenha cuidado, algumas coisas são bem antigas.
- Não se preocupe, seu lidar bem com isso. Você tem luvas descartáveis? Assim posso examinar sem danificar.
-Acho que tenho sim, vou buscá-las.

Ela voltou com uma caixa pequena, de onde ele tirou um par de luvas de borracha, calçando-as cuidadosamente; indo até a varanda, abriu o baú e ficou fascinado com o que viu.
- É, parece que você tem um monte de histórias aqui – disse com uma expressão de admiração e surpresa.
- E eu tenho que te contar por que tenho tudo isso aqui; é uma história longa.
- Não esqueça que gosto de histórias longas – riu enquanto a beijava – temos todo o tempo do mundo, não? Depois de hoje, acho que temos muito ainda pela frente.

Ela riu enquanto o ajudava a abrir o baú; se sentia, pela primeira vez na vida, como se a felicidade lhe tivesse dado asas...

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VELUDO VERMELHO - PARTE VII


Eliza segurava o celular nervosamente; buscou o número na agenda, mas lembrou-se do envelope e do número anotado na borda; repetiu os números no teclado, esperou enquanto o sinal de chamada se repetia até que recebeu o recado de que o celular estava fora de área ou desligado; respirou fundo, no intervalo do pensar se deveria deixar um recado ou não; preferiu não fazê-lo, esperando um pouco para ligar novamente...

Olhou para a cama: lá estavam os maços de cartas; imaginou o que poderia ter acontecido aos correspondentes, pois havia um hiato de datas de um maço de cartas para outro; separou os maços, amarrados por tiras de seda esmaecida, enquanto discava novamente o número dele no celular; procurou mais uma vez ler, uma forma de controlar a ansiedade que crescia cada vez mais...


RECIFE, PROVÍNCIA DE PERNAMBUCO, 12 de Abril de 1863

Cara Irmã

Não me caibo de contentamento ao ver que me formei e já estou em vias de trabalhar com o pai do Mario Fonseca, um de meus colegas de curso; ele disse que tenho potencial para ser um bom advogado, apesar do meu juvenil entusiasmo, que , no dizer dele, pode arruinar as coisas; meu amigo, filho dele, me disse que eu conseguira conquistar o coração do velho, pois “jamais tinha visto o pai dar qualquer elogio, mesmo o mais lacônico”.

Fiquei feliz com a presença de vocês em minha festa de formatura; pela primeira vez vi meu pai esboçar um sorriso, acho que porque ele finalmente acreditava que eu havia me formado; fico pensando que o nosso pai realmente achava que eu estava no caminho certo. Mas isso ficou para trás; agora, tenho de pensar no futuro.

Agora me preocupo apenas com as coisas adiante de mim; podes acreditar ou não, mas nem mesmo a política tem me atraído muito para o cenário dos acontecimentos aqui em Recife; já há alguma agitação por conta dos acontecimentos no Prata, mas nada que mexa muito com o dia-a-dia.

Sei que não tens novas para mim, senão terias me escrito há mais tempo contando cada coisa que tivesse acontecido; mas mesmo assim folgo em receber tua carta, sempre uma razão de felicidade no entediante mundo de regras e normas as quais convivo sempre

Beijo Afetuoso

Do Teu Irmão
Julio



SÃO LUÍS, PROVINCIA DO MARANHÃO, 22 de Junho de 1863

Caro Filho

Te peço perdão por te ter escrito uma missiva tão escassa em palavras; não tinha muito o que relatar a não ser as coisas de praxe, as atribuições da magistratura e os destemperos dos que se veem prejudicados ou esbulhados; por mais incrível que possa parecer, a política parece ter dado uma trégua por aqui, sem mais refregas;

Encontrei por esses dias o estimado amigo Coronel Galdino Póvoas, do Cotonifício Aliança, em Cururupu; recebi dele notícias de que está expandindo os negócios, com a compra de uma fazenda de café no interior da província de São Paulo, mas ao invés de escravos, está negociando a vinda de imigrantes para trabalharem como parceiros ou meeiros, do mesmo jeito que ele fez aqui, mas com os escravos; ele os alforriou a todos e os fez meeiros igualmente.

Aproveito para te passar uma notícia um tanto perturbadora; lembra-se do Alvarez, o merceeiro que morava alpegado à casa de teu amigo Zuza Marcondes? Pois é, ele e o pai do seu amigo tiveram uma altercação que até agora desconheço o motivo; e não é que o doido do Alvarez desafiou o Seu Alfeu Marcondes para um duelo na barra da praia do Caju? Os dois loucos chamaram dois amigos para serem padrinhos e se bateram a fogo de pistola, mas, para o bem de todos, os dois tinham péssima pontaria e não se feriram seriamente.

No mais não há muito a comentar, apenas uma família inglesa que se mudou para a nossa rua recentemente; nosso novo vizinho se chama William Charlton e veio acompanhado da esposa e da filha, uma bela jovem chamada Agnes. Creio serem católicos, pois os vi indo à missa na Igreja da Conceição alguns dias depois de chegarem

Cuide-se bem, meu filho, e dê o melhor de si nesse novo desafio

Que Deus te Abençoe
Abraço do teu pai

Aurélio



SÃO LUÍS, PROVÍNCIA DO MARANHÃO , 28 de junho de 1863

Caro irmão

Agora sim, posso te contar os últimos mexericos da cidade, depois que uma constipação me deixou de cara inchada; o que me salvou foram as mezinhas de Eméria, prestimosa como sempre; nosso pai a tem em alta conta, e eu igualmente; daí posso te escrever.

Nosso pai com certeza já contou o duelo do seu Alvarez com Seu Alfeu Marcondes e da família Charlton, os nossos novos vizinhos; já conheci a filha deles, a bela Agnes, e posso dizer que fiz uma grande amiga; passamos o dia conversando e o pai dela se tornou bom amigo de nosso pai, parece que busca os conselhos dele como juiz, pois o senhor Charlton é representante comercial, negociando as safras de algodão de alguns fazendeiros.

Ontem vi a Marília e o Manduca Zacarias, indo à missa com o filho de colo; ela foi sabida e tratou de agarrá-lo de jeito! Mas imagino que tal mexerico não te interesse tanto quanto um que tenho aqui; os filhos do Major Faria, Lucio e Clara, chegaram de fresco de Paris; não me contive e fui visitá-los; eles me deixaram com água na boca por todas as novidades, especialmente as modas; Clara me pôs a par de tudo, desde os salões elegantes até algumas coisas que me fizeram corar; Lúcio estava mais garboso do que nunca em uniforme naval; ele disse que vai assumir um posto no quartel general do Arsenal de Marinha, pois diplomou-se em engenharia; mas nem pense que ele me fez sequer arfar; sabes o que eu sonho , meu irmão, e não abrirei mão disso;

Espero que as coisas estejam bem por aí; fico escutando os comentários de meu pai e do nosso vizinho senhor Charlton, sobre os negócios na região sul; parece que as coisas estão um tanto difíceis por lá; sabe que não entendo desses assuntos, por isso não irei prolongar-me neles. Na oportunidade mais propícia venha nos visitar, que eu prometo apresentar-te a Agnes.

Beijo afetuoso
Da tua amantíssima irmã
Amália

domingo, 9 de agosto de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VELUDO VERMELHO - PARTE VI



Eliza despertou, pela primeira vez, com uma inquietação que não sabia explicar...

Buscou dentro de si todas as coisas que fizera, tudo o que ocorrera nos dias anteriores desde que retornara de Belém; não gostava de deixar pendências, de qualquer tipo; procurou se lembrar, e foi aí que percebeu o que realmente a inquietava...

Fazia tempo que não sentia os pensamentos se desdobrarem de forma tão intensa; ela controlava cada coisa em sua cabeça como um computador, mas desde que o pai lhe dera essa missão que nada mais parecia sob controle; no trabalho, conseguia sempre a eficiência que exigia, até dela mesma; mas em casa, parecia que não tinha mais o controle de si...

Então, ela se lembrou...

Desde que ele chegara, era como se seu equilíbrio interno fosse deslocado; nada conversaram além do profissional e do trivial, apenas o vira fora do escritório no restaurante, mas havia algo no olhar que parecia dobrar quem o encarasse, algo de desnudar quem o fitasse...

Procurou tirar tais coisas da cabeça, pois teria um dia cheio no escritório, com muitos projetos chegando, especialmente o de restauração de uma casa, cujo dono queria que ela se tornasse moderna sem, contudo, alterar a estrutura original; o que fosse moderno teria de ser bem discreto; procurou colocar tudo em foco, discutindo com a equipe os aspectos da restauração e os termos do contrato com o cliente, pois queria usar esse trabalho como parte de uma campanha para consolidar ainda mais o escritório no mercado.



Ao chegar , percebeu que Eunice tinha uma expressão contrafeita, como se tivesse que transmitir más notícias; recebeu dela a agenda do dia, as pastas de projetos e o bloco de atas da reunião; não teria nada nas próximas três horas, assim poderia se dedicar a examinar os projetos em andamento; o cliente da restauração tinha excelentes conexões e um projeto bem-sucedido seria um algo a mais para o status da firma.

Sentou-se e só então percebeu o envelope sobre a mesa, na caligrafia inclinada e linear que reconheceu ser de Wagner; abriu-o e não conteve a surpresa...


No envelope, estava a carta de demissão dele; alegava motivos pessoais e a decisão era irreversível, pois alguns contratempos o levaram a tomar outra direção, mas que não havia , em momento algum, ressentimento ou mesmo qualquer tipo de desentendimento; apenas algumas contingências que o forçaram a não permanecer onde estava.

Mesmo no emaranhado de coisas que se passavam, conteve o impulso de perguntar a Eunice a razão dele ter se demitido; continuou com os afazeres do dia, recebendo potenciais clientes e resolvendo as pendências que esperavam; dentro de si, porém, o turbilhão de pensamentos parecia querer testar a força de vontade dela, sondando cada ponto em que pudesse desequilibrar; mas ela foi mais forte, esperando o expediente acabar para, assim, procurar saber o que havia acontecido.

Já se preparava para sair quando voltou a atenção para o envelope; pareceu perceber uma leve diferença de tom na aba, como se tivesse algo colado lá; era um envelope autocolante de tamanho médio, com aba simples; ela o pegou e examinou-o, percebendo algo escrito na borda inferior da capa; era um número de telefone, com algo que parecia ser uma frase; reconheceu a caligrafia inclinada e linear escrita a caneta...


A frase dizia : “Me ligue que eu explicarei minhas razões”

Pela primeira vez na vida, dirigiu com pressa, e, ao chegar em casa, não tirou os sapatos ao entrar; jogou a bolsa e o blazer no chão e correu para o quarto; a pilha de cartas estava como ela havia deixado, mas elas teriam que esperar; naquele momento, o celular era o que ela buscava com mais avidez...

(Continua...)

Créditos das ilustrações: Google Images

domingo, 2 de agosto de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VELUDO VERMELHO - PARTE V



SÃO LUIS, PROVÍNCIA DO MARANHÃO, 01 de Maio de 1860

Caro Irmão

Que maravilha receber tua missiva! Estive imaginando o porquê de ficares de parcimônia em me escrever! Pensei que tivesse ficado zangado quando fiz menção de brigar contigo por causa de tua turronice quando fiz troça por causa de Marilia! No final, interesses acabam se encontrando; o Manduca Zacarias desistiu de vez de mim e arrastou a asa para ela, que , ao que se conta, já está cantando aos quatro ventos o noivado! Bom, assim as coisas se aquietam...

Espero que possas escrever de melhor lua, pois quero te ver sorrindo , sem essa de ficares macambuzio a cada tempo; sei que tens afinco em teus estudos e isso não te dá dores de cabeça; o que, então , te deixa assim tão triste? Espero que não seja por minha causa...

Te conto aqui um mexerico que peguei de uma amiga, a Cecília, cujo pai é escrevente do Tribunal da Relação, mas que o papai vai contar em breve; porém, não resisti e te conto de primazia: ele está pra ser nomeado Juiz de Paz, por merecimento!!! Quase o meu coração parou; nosso pai é um homem honrado e reconhecido como advogado, e é mais do que merecida a nomeação, mas não dê a entender que já sabes quando for escrever, viu? Segredo de irmãos...deixe ele te passar a notícia.

Não tenho muito mais o que comentar, apenas conversa de mulher, que tenho certeza não te interessa; não deixe de mandar notícias, meu irmão, e que Deus te guarde..

Beijo Afetuoso em tuas faces
Da tua irmã
Amália


SÃO LUÍS, PROVÍNCIA DO MARANHÃO , 15 de Maio de 1860

Caro Filho

Escrevo para saber novas de ti; não entendi até agora por que as curtas notas que enviaste, como que estivesses sem assunto ou sem vontade de conversar; minha preocupação de pai é sempre no teu bem, jamais o oposto; quero apenas saber se as coisas vão em bons ventos, se os teus estudos estão em ordem e, principalmente, se tens feito tuas coisas direito; sei bem como é isso, já tive meu tempo de moço, com a cabeça cheia de ideias e sonhos e com todo o brio; mas temos de tomar tenência em nossas vidas e tomar nossas decisões para o nosso próprio bem;

Aqui na cidade, ao que parece, a calma reina; Cândido Mendes enfim assumiu a cadeira de deputado geral, mesmo com todo o dinheiro e as ameaças do coronel Izidoro; o mais novo rebuliço é o pipocar dos clubes abolicionistas, onde se misturam estudantes, jornalistas e alguns mais que começam a incomodar; a guarda já fechou alguns desses antros, mas no fechar de um, abrem-se outros; lembra do teu colega Juca Monforte? Aquele biltre fundou um desses valhacoutos e ganha cada vez mais gente para o lado dele! Nem rapou a primeira penugem e já se faz fumaças de líder; acreditas que tem gente que quer que ele seja vereador? Ora vamos! Um insolentezinho desses de assento na Câmara! Ora essa! U’a malta é o que eles são! Até o forro Elesbão, que tua mãe fez o favor de fazer liberto como vontade de testamento, anda a desfeitear todos! Para onde vamos desse jeito?

Bom, meu filho, deixe esse meu destempero de lado e procure dar acerto na vida; aqui fico esperando carta mais longa tua, pois apenas deixas um coração apertado de pai quando tens tanta parcimônia de palavras;

Só para contar a ti, fui nomeado Juiz de Paz do distrito de Anindiba, próximo do arraial da Maioba; assumi o posto há uma semana; novas coisas se revelam para mim, mas tenho certeza que minha fé me guiará no caminho certo. Espero que fiques contente com as boas novas e mande notícias logo.

Deus Te Guarde, Meu Filho
Abraço Afetuoso e minhas preces
Teu Pai 

Aurélio


RECIFE, PROVINCIA DE PERNAMBUCO, 06 de junho de 1860

Caro Pai

Por primeiro, aceite minhas escusas por delongar a resposta da carta que me enviaste mês passado; a razão da demora era porque eu estava acamado com uma forte constipação, que acabou quase virando pneumonia; tive de enfrentar aqueles terríveis sanapismos de mostarda, ventosas e  só não me sangraram porque me recuperei logo; assim, esta é uma carta para compensar as notas curtas que mandei; não queria apoquentá-lo com coisas que achei que fossem tolas, mas no final quase me abateram.

Fiquei muito feliz e orgulhoso com a sua nomeação a Juiz de Paz; o senhor indubitavelmente merece o posto, pois sempre foi um advogado de amplo domínio da prática e nada mais natural que o senhor fosse nomeado; me causaria estranheza se não fosse.

A situação é a mesma aqui, pai, mas com tintas mais fortes; há quem diga que alguns clubes abolicionistas estão organizando expedições para libertar escravos de fazendas e conduzi-los a quilombos ou mesmo para refúgios fora da província; a guarda aqui tenta recapturá-los sem muito sucesso.

Um colega aqui, o Jonas Almada, chegou recentemente da América. Tinha ido estudar leis, mas voltou porque o país está em estado de guerra civil, causada pela discussão sobre a escravidão nos territórios do sul; pois, segundo o que ele me disse, o sul está em guerra com o norte por essa razão; ouvi o relato dele e fiquei pensando: “tomara que não cheguemos a ponto de guerrear por escravos”

Continuo os estudos com afinco; quando estava acamado os colegas me ajudavam com os compêndios na cama; não fiquei atrás em nada, nem mesmo em direito romano, que, confesso, não ia muito bem; mas não levei bomba em nenhuma cadeira, isso eu posso garantir.

Não tenho mais para contar, meu pai, a não ser que os exames para o terceiro ano estão chegando e terei de me preparar bem, espero passar com boas notas.

Algo mais: minha próxima carta virá por um de meus amigos daqui, um paraense chamado Antônio Ribeira; ele deve resolver algumas coisas pessoais em Belém e passará por aí; se puderem fazer algo por ele, tenho certeza que ficará muito grato 

Recomendações e suas preces
Do seu filho
Júlio


RECIFE, PROVÍNCIA DE PERNAMBUCO, 13 de Junho de 1860

Cara Irmã

Imagino que o nosso pai já deva ter contado a razão de eu me demorar tanto a escrever; não queria imaginar-te arfando pelos cantos em angústias e inquietudes; me feriria muito saber que ficaste assim; por isso não foi por turronice ou parcimônia, mas porque o teu irmão estava acamado e não queria te preocupar.

Com que então o Manduca Zacarias se arranjou com a Marília? Que bem arranjados fiquem; não me apoquenta qualquer coisa vinda deles; talvez, mesmo, bem se mereçam no fim das contas;

Me contes, recebeu o livro do Joaquim Manuel de Macedo que te enviei? Ele está a ser a sensação da cidade; recebi o exemplar do Rio de Janeiro e li-o de um fôlego só; é bom, mas acho que as moçoilas vão apreciá-lo mais; aqui os rapazes pelejam para memorizar poesia para fazer firula, mas fico a ver o ridículo disso; não me tome como sem sentimentos, mas é que tais coisas não me apetecem no presente momento. Espero que tudo esteja às boas e que apenas alvíssaras cheguem à nossa casa. Mande minhas recomendações aos amigos daí se os encontrar em tempo.

Terei mais o que contar na próxima carta; agora estou melhor, poderei escrever mais e contar mais coisas daqui; fique com o meu amor fraterno e minhas preces

Beijo afetuoso do teu irmão
Que te ama extremosamente
Júlio